quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A cultura da cana de açúcar no Cariri
                                                                  Engenho típico do Cariri cearense

    Nos dias atuais, o Sul do Ceará, passa por um processo de transformação, em todos os sentidos da vida, o que levou muitas de suas práticas e atividades tradicionais ao desaparecimento. No setor da economia do Cariri, uma das atividades do passado, praticamente extinta, foi o cultivo de cana de açúcar, a qual perdurou desde o início do povoamento desta região – início do século 18 – até princípios da década 1960.
   Segundo a arquiteta e historiadora Maria Yacê Carleal Feijó de Sá (autora de um monografia de Mestrado “Os Homens que Faziam o Tupinambá Moer”, UFC, 2007), os brejos do Cariri, desde a época da distribuição das sesmarias, já passaram a ser tomados pela plantação da cana-de-açúcar, de forma que antes mesmo de 1725 já funcionavam as primeiras estruturas que fabricavam o melado e a rapadura na região. No ano de 1765, estima-se que já existiam 37 unidades fabricando mel e rapadura no Cariri. Segundo Yacê, em 1858 já existiam cerca de 300 engenhos de fabrico de rapadura no Cariri, e desses, 72 engenhos ficavam no pé de serra e no brejo do município de Barbalha.
  No Cariri, os engenhos passaram por três fases. Na primeira, no século XVIII, como a água nas nascentes eram abundantes, as moendas eram movidas pela força hídrica. A segunda fase foi a tração do boi que movia as moendas dos engenhos. Por fim, veio a fase dos engenhos de ferro. Os primeiros desse tipo foram trazidos, possivelmente, de Pernambuco.
   Mas essa atividade econômica, que gerou tanta riqueza, que fez surgir uma aristocracia ruralno Sul do Ceará, que fez o Cariri progredir, desapareceu. Hoje, em Barbalha, existem apenas cinco engenhos, que se mantêm com pequena atividade. Desses, dois fabricam somente rapadura e, os outros três, além do doce, fazem cachaça, batida e alfenim. Mas todos só trabalham por encomenda.
    Para conhecer mais sobre o assunto, existe um pequeno livro – “Engenhos de Rapadura do Cariri” – escrito pelo historiador J. de Figueiredo Filho, com uma segunda edição publicada em 2010, pelas Edições UFC, da Universidade Federal do Ceará.

Instituto Cultural do Cariri vai fundar o “Museu do Engenho de Rapadura”
 A atual direção do Instituto Cultural do Cariri-ICC está elaborando um projeto para criação do Museu do Engenho de Rapadura do Cariri. Excelente iniciativa para uma cidade onde o Poder Público Municipal fechou, há dez anos, os dois maiores museus públicos: o Museu de Artes Sinhá D’Amora e o Museu Histórico de Crato. Este último criado pelos fundadores do Instituto Cultural do Cariri.
 Explica o Presidente do ICC, o advogado Heitor Feitosa,  que a ideia de fundação do Museu do Engenho de Rapaduras do Cariri surgiu pela nostalgia da população caririense com o fim da exploração da cana de açúcar, que era o carro-chefe da economia do Sul do Ceará. Diz Heitor Feitosa que esse fim foi danoso tanto à história, como à memória do Cariri.  

65 anos da revista “A Província”
 Fundada em 1953, a revista “A Província” é a mais antiga publicação cultural da cidade de Crato. Bom lembrar que a revista “Itaytera”, órgão oficial do Instituto Cultural do Cariri, só teve seu primeiro número lançado em 1955.
 No seu próximo número, “A Província” prestará uma homenagem ao escritor F.S. Nascimento, um dos seus fundadores, recentemente falecido. Os outros dois fundadores da revista, também falecidos, foram   Florisval Matos e Humberto Cordeiro. 
 “A Província”, nos dias atuais, é fruto da teimosia e perseverança do Prof. Jurandy Temóteo, diretor e redator da revista. Jurandy vem publicando “A Província” todos os anos. Existem anos que ele chega a publicar dois números da revista, cujo lema é: "O universal pelo regional". Coerente, pois, com esse objetivo embutido, verifica-se que não precisa ser cratense para ser alcançado pelos conteúdos do periódico. Os assuntos tratados, na sua maioria, extrapolam o regional e têm essa conotação universal.

Jornalistas do Cariri: José Joaquim Teles Marrocos
    Fátima Menezes – em “Síntese Biográfica”, página 6 – escreveu que José Joaquim Teles Marrocos nasceu em Crato, no dia 26 de novembro de 1842, filho do Padre João Marrocos Teles. A respeito de sua mãe, pouco se sabe. Apenas que “era filha de escravos e residia nas proximidades de Crato”. José Marrocos era primo e amigo do Padre Cícero Romão Batista.
  Raimundo de Oliveira Borges, – no livro “O Crato Intelectual”, páginas 19/20, – escreveu que José Marrocos foi jornalista, latinista, abolicionista e uma das principais campanhas pró-abolição da escravatura na Província do Ceará. Escreveu em vários jornais do Rio de Janeiro e de Fortaleza, defendendo com destemor a extinção da escravatura. Na verdade, o professor José Joaquim Teles Marrocos foi muito mais. Foi educador e fundador de várias escolas na atual conurbação Crajubar; católico fervoroso e formador de várias gerações de caririenses. 
  Em 1908 deixou de residir em Crato e se fixou em Juazeiro do Norte. Passou a fazer parte desta última cidade. Não somente por ser um defensor ardoroso do que se convencionou chamar “O milagre da hóstia”, fenômeno verificado, diversas vezes, quando a Beata Maria de Araújo recebia a Santa Comunhão, mas por outras atividades no setor da educação e como jornalista. Foi redator do jornal “O Rebate”, publicado em Juazeiro do Norte, que defendia a emancipação da então “Vila do Joaseiro”, à época pertencente ao município de Crato.
 Ao falecer, em 14 de agosto de 1910, estava escrevendo um livro, “A Questão Religiosa de Juazeiro”, obra que nunca foi publicada. Está sepultado no Cemitério do Socorro, ao lado do túmulo do Beato José Lourenço. em Juazeiro do Norte.
                                 Foto do velório do Prof. José Marrocos em 15 de agosto de 1910.

História: O primeiro vigário de Juazeiro do Norte
  Quando o primeiro Bispo de Crato, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, criou a Paróquia de Juazeiro do Norte – em janeiro de 1917 – designou para administrá-la um dos mais cultos e virtuosos sacerdotes da nova Diocese:  o Padre Pedro Esmeraldo da Silva. Este era considerado o maior orador sacro da Diocese de Crato.
  Nascido em Crato, em 29 de janeiro de 1876, Pedro Esmeraldo de Crato ingressou, ainda criança, no Seminário São José de Crato. Lá, fez o curso primário. Adolescente, seguiu para o Seminário de Olinda, onde fez os estudos preparatórios para o sacerdócio. Transferiu-se para o Seminário de Fortaleza, onde fez o curso de Teologia. Não tendo idade canônica para ser ordenado padre, continuou no
Seminário de Fortaleza como professor.
   Voltando a sua cidade natal foi um dos sacerdotes que reabriram o Colégio São José, o qual depois teria o nome mudado para Ginásio do Crato e, posteriormente, Colégio Diocesano do Crato. Em 1917, Mons. Esmeraldo foi nomeado o primeiro Vigário da Paróquia de Nossa Senhora das Dores de Juazeiro do Norte. Saiu dali para exercer o cargo de Cura da Catedral de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Anos depois retornou ao Ceará e pediu ao Bispo de Crato que o nomeasse, novamente, como Vigário de Juazeiro do Norte. Morreu nessa função, no dia 1º de outubro de 1934, de um enfarto fulminante. O povo de Juazeiro levou, a pé, o corpo do seu vigário para ser sepultado no cemitério de Crato.

Faleceu o sacerdote mais velho da Diocese de Crato
                                Monsenhor Aluízio celebrou a missa durante 80 anos de sua existência

    Faleceu no último dia 5 de outubro, em Fortaleza, o decano do clero cratense. O título cabia por direito ao Monsenhor Aluízio Rocha Barreto, o qual, nesta quarta-feira, de outubro de 2018, teria completado 104 anos de idade. Ele já residia há várias décadas na capital cearense.
   Monsenhor Aluízio Rocha Barreto nasceu em Missão Velha, em 10 de outubro de 1914. Ele veio ao mundo dez dias antes da criação da Diocese de Crato, fato ocorrido em 20 de outubro de 1914, por ato do Papa Bento XV.  Por isso, Monsenhor Aluízio também festejou seu centenário de nascimento, no mesmo ano e mês que a Diocese de Crato comemorava o centenário de sua criação.
  Em fevereiro de 1934, o seminarista Aluízio Rocha Barreto já estava estudando no Seminário Provincial de Fortaleza, aonde foi ordenado sacerdote no dia 5 de dezembro de 1937.  Foi designado, dias depois, como vigário cooperador de Missão Velha, sua cidade natal. Em 1939 foi nomeado vigário do município de Farias Brito. Em 1940 e 1941 vamos encontrá-lo como professor do Colégio Diocesano de Crato.  Depois dessas atividades, Monsenhor Aluízio Rocha Barreto deixou a diocese de Crato indo exercer pastoreio na Diocese de Caicó, no Estado do Rio Grande do Norte. A partir de 1958 fixou residência em Fortaleza, aonde residiu durante 60 anos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

65 anos do Instituto Cultural do Cariri–ICC
  Iniciadas em 06 de setembro de 2018, com o lançamento do livro-póstumo de Manoel Patrício de Aquino (“Alguma Coisa”), as comemorações alusivas aos 65 anos de fundação do Instituto Cultural do Cariri–ICC, prosseguiram no dia 28, do mesmo mês, com o lançamento do livro “Dormindo à Borda do Abismo”, de José Flávio Vieira.
   As festividades prosseguirão nesta 5ª feira, 4 de outubro, com uma sessão comemorativa pelos 65 anos de fundação do ICC. Será às 19:00h. na sede da instituição com hasteamento de bandeiras, replantio de um mandacaru (árvore símbolo do ICC) e lançamento do número 47 da revista Itaytera, alusiva a 2018.
    Na mesma ocasião será oficialmente lançado o site do ICC na Internet. Este site disponibilizará, para consultas, a coleção digitalizada completa da revista “Itaytera”. Nessa sessão serão abertas as comemorações pelo centenário de nascimento dos ex-sócios Alderico de Paulo Damasceno, Pe. Antônio Vieira e José do Vale Arraes Feitosa. Um coquetel será servido aos presentes.
         
No próximo dia 18 de outubro de 2018, será celebrada uma missa comemorativa aos 65 anos de fundação do Instituto Cultural do Cariri, na Catedral de Nossa Senhora da Penha. No dia 09 de novembro vindouro haverá sessão de homenagem aos fundadores e ex-presidentes do Instituto Cultural do Cariri. Será orador oficial o repórter da Rede Globo, e sócio do ICC, jornalista Francisco José de Brito. Ele é titular da Cadeira 17, que tem como patrono o jornalista João Brígido.
    Finalmente, nas datas 20 e 21 de dezembro de 2018, será realizada a 1ª Festa do Livro do Cariri–FLICA, tendo como local a Praça Siqueira Campos. Naquelas datas haverá lançamentos e venda de livros, apresentações musicais, folclóricas e danças, exposição de arte, desfile de modas e mesas redondas, dentre outras atrações. 

A presença da Igreja Católica na formação do Cariri
 Capela  de Santo Inácio de Loyola, localizada no Sítio Caldeirão, no município de Crato. Este pequeno templo foi construído pelo Beato José Lourenço
 
  A Igreja Católica contribuiu de forma decisiva para a formação da sociedade caririense. As cidades do sul-cearense, em sua maioria, surgiram ao redor de um templo católico. Geralmente uma capelinha construída numa pequena comunidade. Os santos faziam parte das nossas famílias nos albores do Cariry Novo. E estavam presentes na rotina do povo, tanto da zona rural, como das pequenas vilas, a partir dos anos de 1700. As relações entre Igreja Católica e as instituições governamentais foram estreitas no Sul do Ceará. 
   Tanto no tempo do Brasil-Colônia, quanto no Brasil-Império. Essa relação garantia a disciplina social da nossa sociedade. Ademais, a Igreja, por ser a religião oficial do Brasil, também executava no Cariri as tarefas administrativas que hoje são atribuições do Estado. A exemplo do registro de nascimentos, mortes e casamentos. Somente a partir do golpe militar de 15 de novembro de 1889, começou a declinar a influência do catolicismo na vida dos caririenses.

A religiosidade do povo caririense
                                        Igreja-Matriz de Senhora Santana, na cidade de Santana do Cariri

   O médico-historiador Irineu Pinheiro sintetizou, com rara felicidade, a principal característica do povo caririense: a religiosidade. No livro “O Cariri”, publicado em 1950, escreveu ele que essa característica foi preponderante na formação do caririense. A conferir: 
   “Foi sempre muito religioso, inda hoje o é, o povo do Cariri. Vive, como todo cearense, a apelar para a misericórdia divina, no decurso de sua existência entremeada de épocas de fartura e felicidades e misérias e morte. Cite-se, aqui, um exemplo da fé inabalável da mulher sertaneja. Em quaisquer perigos, em momentos, por exemplo, de grandes chuvas acompanhadas de relâmpagos e trovões de estalo, costuma ela ajoelhar-se diante de seus humilíssimos registros de santos e rezar o rosário apressado da Virgem da Conceição”. (...) “Em toda a zona do Cariri, também nos sertões circunvizinhos, extremou-se a religiosidade popular”

A força da Igreja Católica no Cariri
   A bem dizer, a Igreja Católica foi a bússola usada para guiar as populações caririenses desde o povoamento do Sul do Ceará.  Missão Velha e Crato – as duas mais antigas povoações do Cariri – nasceram como frutos do trabalho evangelizador dos frades franciscanos capuchinhos, que aqui atuaram a partir do início do século 18, ou seja na primeira década de 1700. Passados 318 anos, a conduta dos caririenses – sua cultura, mentalidade, usos e costumes, enfim, muito do que diz respeito à prática religiosa do nosso povo – deve-se a sua relação com esses missionários franciscanos que habitaram entre nós.
    Ainda hoje nossas cidades são tituladas, e até conhecidas, pela herança da evangelização católica. A “Terra do Padre Cícero ou “A Terra da Mãe de Deus” (Juazeiro do Norte); “A Terra de Santo Antônio” (Barbalha); “A Terra de São José” (Missão Velha) ou “A Cidade de Frei Carlos” (Crato), são exemplos mais conhecidos. Mas é comum, à entrada das cidades caririenses, a existência de arcos ou monumentos dedicados aos seus padroeiros. Falar em Padroeiros, as suas festas representam, ainda hoje, grandes manifestações coletivas de fé e interação social. Algumas têm registros no nosso patrimônio histórico.

Os santos padroeiros dos municípios caririenses
 Procissão a Nossa Senhora da Penha -- Imperatriz e Padroeira da cidade de Crato -- no último dia 1º de setembro

  Festas como a de Nossa Senhora das Dores (Rainha e Padroeira de Juazeiro do Norte) e a de Santo Antônio (Padroeiro de Barbalha) obtêm repercussão nacional e são divulgadas pela grande mídia televisiva do Brasil. Mas não só estas. Repercussões menores, mas também significativas, atraem multidões para os festejos de Nossa Senhora da Penha (a “Imperatriz de Crato”, como reza a tradição mais do que bicentenária), de São Raimundo Nonato (Padroeiro de Várzea Alegre), de São José (Padroeiro de Missão Velha e Potengi). Outras festas de Padroeiros estão inseridas no calendário turístico do Cariri: Santa Teresa D’Ávila (Altaneira), Santo Antônio (Antonina do Norte, Araripe, Barro e Jardim), Nossa Senhora das Dores (Assaré e Jamacaru), São Pedro (/Caririaçu), Senhora Santana (Jati e Santana do Cariri), Nossa Senhora da Conceição (Mauriti e Porteiras), Nossa Senhora dos Milagres (Milagres), São Sebastião (Nova Olinda). Todas essas cidades realizam festejos significativos paras seus Patronos e Patronas.

A capela de São Sebastião dos Currais
   Quem percorre a estrada Barbalha-Arajara-Crato, em direção à última cidade, é surpreendido — cerca de cinco quilômetros, antes de chegar ao destino — quando avista, no lado direito, uma singela e respeitável capelinha, típica dos templos rurais do século 19. Trata-se da Capela de São Sebastião, do sítio Currais, erguida para atestar, às gerações futuras, uma grande graça concedida por Deus, à população daquela localidade, na segunda metade do século 19.
    Damos a palavra ao historiador Irineu Pinheiro que fez menção deste fato no seu livro “O Cariri”, página 245: “Em 1862 prometeu o major Felipe Teles Mendonça erigir uma capela em seu sítio Currais, a uma légua do Crato, dedicada a São Sebastião, se não morresse de cólera-morbo nenhum dos membros de sua família ou de seus moradores. Naquela época a epidemia do mal asiático abateu milhares de pessoas em todo o Ceará. Nada sofreram o major Felipe e os de sua casa e sítio. Em 12 de outubro de 1863, para cumprir o seu voto, pediu ao Bispo Dom Luiz Antônio dos Santos licença para edificar a igrejinha, licença que lhe foi dada no dia 13 do mesmo mês e ano, depois de informação favorável do vigário de Crato, Pe. Joaquim Aires do Nascimento. Mas só em 1888, após ter o segundo Bispo do Ceará, Dom Joaquim José Vieira, confirmado a graça concedida por D. Luiz, foi erguida a capelinha e benzida pelo vigário do Crato, Antônio Fernandes da Silva”. 

História: Sesquicentenário da Casa de Caridade de Crato
                                       Como era a Casa de Caridade de Crato até a década 1950

   No próximo ano – mais precisamente em 07 de março de 2019 – será festejado os 150 anos de inauguração da Casa de Caridade de Crato. O médico-historiador José Flávio Vieira, no seu mais recente livro (“Dormindo à Borda do Caminho – A Medicina no Cariri Cearense–1800-1900”, na página 146) fez uma retrospectiva daquela instituição, fruto do trabalho apostólico do Servo de Deus Padre José Antônio de Maria Ibiapina.
    Dentre outras informações, José Flávio publicou: “ (A Casa de Caridade de Crato) Teria uma longa e profícua atividade, permanecendo em funcionamento por quase cem anos. Na Casa de Caridade de Crato, além das funções habituais da instituição, montou-se um Gabinete de Leitura (talvez a primeira biblioteca da cidade) e que em notícia de 20 de março de 1870, na “Voz da Religião do Cariry”, possuía 45 volumes”. Número considerável para aquela recuada época.
    As instalações da Casa de Caridade de Crato também abrigaram, em caráter temporário, (a partir de 23 de dezembro de 1936), o recém-criado Hospital São Francisco de Assis de Crato, iniciativa do 2º Bispo da nossa diocese, Dom Francisco de Assis Pires.
    Apesar de o prédio ter sido descaracterizado (por reformas feitas sem preocupação de preservar o aspecto original do prédio), a Casa de Caridade de Crato se constitui num edifício que deveria ser tombado pelo Patrimônio Histórico do Ceará. Aquele imóvel perdeu, é verdade, muito da sua bonita fachada. Na década 50 do século passado foram destruídas, também, suas centenárias árvores fruteiras e outras plantas ornamentais que ficavam onde hoje estão localizados os prédios do Colégio Madre Ana Couto e da Rádio Educadora do Cariri. Entretanto, aquele conjunto arquitetônico ainda é um resquício do que foi, tempos atrás, a beleza do estilo que dominou o patrimônio imobiliário da Cidade de Frei Carlos.

Escritores do Cariri: Irineu Pinheiro
  Nascido em 6 de janeiro de 1881, em Crato, Irineu Nogueira Pinheiro é considerado um dos mais respeitados e produtivos intelectuais do Cariri. Estudou em Crato (Seminário São José), Fortaleza, Recife e no Rio de Janeiro, cidade onde concluiu o curso de medicina, na turma de 1910.
  Estudioso da História, foi “o maior pesquisador dos “fastos” regionais”, na feliz expressão do Dr. Raimundo de Oliveira Borges. Deixou vários livros publicados, dentre eles: “Um Caso de Dexiocardia”, “O Juazeiro do Padre Cícero e a Revolução de 1914”, “José Pereira Filgueiras”, “ Joaquim Pinto Madeira”, “Cidade do Crato”, “Morte do Capitão J. da Penha”, “O Cariri” e “Efemérides do Cariri”. Foi um dos fundadores e primeiro presidente do Instituto Cultural do Cariri.
  Foi Inspetor Federal do Colégio Diocesano; professor do Seminário São José; Sócio-Correspondente da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará.  Colaborou com os jornais de Fortaleza e com os periódicos de Crato (“A Região”, “Correio do Cariry” e “A Ação”). Teve intensa participação nos movimentos que trouxeram progresso para sua cidade natal, sendo fundador e primeiro presidente do Rotary Clube de Crato e Presidente do Banco do Cariry, a primeira instituição de crédito do interior cearense, fundada por Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva.
   Faleceu, em 21 de maio de 1954, na cidade de Crato, vítima de colapso cardíaco, enquanto – com a caneta à mão –  escrevia a um amigo de Fortaleza sobre o último livro que produziu: “Efemérides do Cariri”.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

As tentativas para separar a região do Cariri do Ceará
     As alegativas (para a criação da “Província” e/ou “Estado” do Cariri) sempre foram mais ou menos as mesmas: a de que a região sul-cearense possuía progresso econômico e civilizatório, mas não recebia o apoio necessário vindo do governo sediado em Fortaleza, o qual relegava ao abandono o Cariri. 
     A primeira tentativa de independência do Cariri foi em 1828. A Câmara de Vereadores do Crato encaminhou representação ao Governo Imperial mostrando a oportunidade de criação da nova Província do Cariri Novo. A ideia voltou à tona, em 14 de agosto de 1839, quando o senador José Martiniano de Alencar, do Partido Liberal, apresentou, no Senado do Império do Brasil, um projeto de lei, cujo artigo 1º dizia textualmente: "Fica criada uma nova Província que se denominará Província do Cariri Novo, cuja capital será a Vila do Crato".
     Anos depois, através do jornal "Diário do Rio de Janeiro", voltava o senador Martiniano de Alencar a defender sua ideia de criação da Província do Cariri. Em 1846 a proposta foi reapresentada pela Assembleia Legislativa da Província do Ceará e retomada no decênio de 1850 pelo jornal “O Araripe”, editado em Crato. No século XX a reivindicação ganhou fôlego nos anos de 1905, pelas páginas do jornal “Sul do Ceará”. A última tentativa foi em 1957, quando se criou um Comitê Central Pró Estado do Cariri. Todas essas tentativas ficaram só no sonho. Hoje é impraticável se pensar em iniciativas separatistas como as mencionadas acima.

Como era o Cariri nos tempos do Brasil-Colônia?
       Ainda hoje, muitas pessoas  -- que se julga bem informadas --, não sabem distinguir a diferença entre os tempos do “Brasil-Colonial” (quando pertencíamos a Portugal) para os tempos do “Brasil-Império” (quando o Brasil se tornou uma nação independente com dimensão continental). É comum, quando se fala da monarquia brasileira, até mesmo professores (que têm obrigação de distinguir essas duas fases) afirmarem: “Na monarquia, os portugueses levavam nossas riquezas para a metrópole”. Ora, a transferência dos produtos brasileiros para Portugal ocorreu somente na época do “Brasil-Colônia” (e mesmo assim somente até a chegada da Família Real, em 1808). Essas transferências não ocorreram no “Brasil-Imperial”, país soberano e respeitado no concerto das nações a partir de 1822.
       Como era o Cariri no “Brasil-Colônia”? Distante mais de 600 km do litoral, carente de comunicação com os centros mais adiantados do Brasil, no Cariri cearense foi plasmada uma cultura própria, herança portuguesa, sob forte influência da Igreja Católica. Em algumas vilas e localidades caririenses, as companhias de penitentes se flagelavam, à noite, em frente das igrejas e dos cemitérios. O centro gravitacional das populações daqueles remotos tempos girava em torno da aristocracia rural, semelhante ao um feudo medieval!
       O proprietário rural atuava quase sempre como um poder moderador nos conflitos naturais da convivência humana. E a relação “patrão-empregados” era feita na base do compadrio. O proprietário rural era visto mais como um amigo (a quem se podia recorrer nas dificuldades) sendo impensável, naquele tempo, a versão – ainda hoje pregada nas universidades públicas – de “classe dominante”. 

O Cariri foi uma herança da mentalidade medieval
Crato em 1859, aquarela de José dos Reis Carvalho

     A região do Cariri foi, no início do seu povoamento, um resquício da civilização medieval, lembrando a que existiu na Europa, guardadas, é claro, as diferenças das realidades entre o velho e o novo mundo. Quando a decadência dos princípios basilares da Idade Média teve início no velho continente europeu, por volta do século XV, este processo de descristianização não foi implantado na Europa com rapidez. Nem atingiu todas as nações europeias com a mesma intensidade. Fácil compreender por que isso ocorreu.  Naquele tempo, não existiam os meios de comunicação, que temos hoje. As notícias e os acontecimentos levavam tempo para chegar aos países periféricos da Europa, e às pequenas vilas e povoados destes.
       Portugal, o mais ocidental dos países europeus, situado às margens do Oceano Atlântico, foi o último a sofrer as consequências da decadência daquele apogeu que caracterizou o sistema econômico, político e social, conhecido por “feudalismo”. Em Portugal, as consequências da  debacle desse sistema (que começou a se estruturar na Europa, ao final do Império Romano do Ocidente – século V – e atingiu seu apogeu no século X, só desaparecendo praticamente no final do século XV) chegaram às terras lusitanas com relativo atraso.

Mentalidade transferida para o Brasil nos albores do povoamento
      Ora, no início do século XVI, quando os portugueses aportavam no Brasil, ainda traziam para este Novo Mundo, boa parte da mentalidade medieval, no que diz respeito aos princípios de uma sociedade orgânica, isenta das “novidades” que a Idade Moderna já introduzira, por exemplo, na França, na Alemanha e outros países mais influentes do continente europeu.
        Chegando ao Nordeste brasileiro, a mentalidade da sociedade católica, aqui plasmada pelas boas famílias portuguesas que para cá se transportaram – os chamados “fidalgos” – conservou muitos princípios da mentalidade medieval. E isso aconteceu devido, principalmente, à grande distância e à falta de comunicação entre esta parte do Brasil e a já revolucionária Europa.

Mentalidade que chegou ao Brasil-Imperial  
Verdadeiro rosto do Imperador Dom Pedro I,
revelado graças à reconstituição facial feita
recentemente, sob os auspícios do Prof. José Luís Lira
- Crédito: Cícero Moraes
   No século 19, a maior parte dos trabalhadores dos engenhos caririenses era composta de homens livres, os chamados “agregados da família”.  E mesmo os escravos negros (pouco numerosos no Cariri), consoante a tradição, não sofriam – salvas as exceções – a opressão e a impiedade, que levavam seus irmãos de cor a gemer nos cativeiros de outras províncias brasileiras, especialmente as exportadoras de produtos agrícolas (São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, dentre outras). Talvez isso ocorresse no Cariri, porque não havia nesta região uma elite econômica ávida por lucros, voltada para a exportação da sua produção, como a existente nas províncias acima citadas. O escravo no Cariri, com raras exceções, era quase gente da família. Esses negros compartilhavam dentro da sua humildade e sujeição os acontecimentos alegres e tristes dos seus senhores.


Crato vai comemorar o centenário do Prof. José do Vale
    José do Vale Arraes Feitosa nasceu na fazenda Canabrava, em Aiuaba, sertão dos Inhamuns, em 11 de abril de 1919. Adolescente veio estudar no Seminário São José de Crato, e desta cidade nunca mais saiu.
    Vocacionado para o magistério foi professor em Crato durante 42 anos. Foi vice-diretor do Colégio Diocesano de Crato de 1947 a 1969; professor e co-fundador do Colégio Estadual Wilson Gonçalves, do Colégio Agrícola Federal e do Ginásio Municipal Pedro Felício, todos da cidade de Crato. Em 1968, formou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia do Crato, habilitando-se a ministrar as disciplinas: Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Francês e Literatura da Língua Francesa. Especializou-se em Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Língua Nacional.
    Casou, muito jovem, com Maria Gisélia Pinheiro, com quem teve seis filhos. Em 1965 ficou viúvo. Em 1968 contraiu novo matrimônio com a professora Maria do Carmo Feitosa, sua parente. Desta união nasceram dois filhos. Era fluente orador. Foi um dos fundadores do Instituto Genealógico do Cariri. Recebeu o título de “Cidadão Cratense” e era sócio do Instituto Cultural do Cariri. Faleceu em 19 de outubro de 1997.
     Em 2019, no dia 11 de abril, a comunidade cratense vai comemorar o centenário de nascimento de um homem de bem, na verdadeira acepção da palavra. Um grande mestre, humano, afável, uma pessoa, simples, culta e de bom coração.

História: Um herói chamado Tristão
Bandeira da Confederação do Equador de 1824
     Muita gente ainda confunde a “Revolução Pernambucana de 1817” com a “Confederação do Equador”. Foram dois movimentos revolucionários distintos. Em 1824, eclodiu nova revolução republicana em Pernambuco denominada "Confederação do Equador". Este movimento uniu algumas lideranças das províncias de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, descontentes com a Constituição outorgada pelo primeiro imperador brasileiro, Dom Pedro I. O movimento repercutiu intensamente no Crato. Tristão Gonçalves de Alencar Araripe aderiu, com todo entusiasmo e idealismo, à Confederação do Equador. Em 26 de agosto daquele ano, foi ele aclamado pelos rebeldes republicanos como Presidente do Ceará. Entretanto a reação do Governo Imperial foi implacável. As instruções para debelar o movimento eram assim sintetizadas: "(...) não admitir concessão ou capitulação, pois a rebeldes não se deve dar quartel". Debelado o movimento restou a Tristão Araripe duas alternativas: exilar-se no exterior ou morrer lutando. Escolheu a última opção.
      Nas suas pelejas, Tristão colecionou vários inimigos. Dentre eles um rancoroso proprietário rural, José Leão da Cunha Pereira. Este utilizou um seu capanga, Venceslau Alves de Almeida, para pôr fim à vida do herói da Confederação do Equador no Ceará. Tristão Araripe faleceu, em 31 de outubro de 1825, combatendo o grupo armado de José Leão, na localidade de Santa Rosa, hoje inundada pelas águas do Açude Castanhão. Morreu como queria: pelejando, graças a Deus!



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

    A força eleitoral do Cariri 
      Nos dias atuais, compõe a região do Cariri 29 municípios. Contam eles com mais de 711 mil eleitores aptos a votar nestas eleições de 2018, a se realizarem em 7 de outubro próximo. Desses eleitores, 295.301 (mais de 41%), residem na conurbação Crajubar (Crato, Juazeiro e Barbalha. Só Juazeiro do Norte tem mais de 160 mil eleitores). E imaginar que, com toda essa força – devido as esdrúxulas leis eleitorais em vigor –  o Cariri não tem um único deputado federal nos dias de hoje. 
    Se tivéssemos voto distrital o Cariri formaria, com certeza, um distrito eleitoral, como foi na época do Brasil Império. Nada justifica que uma região tão importante e tão povoada seja desprovida de um deputado que represente mais de 1 milhão de habitantes.

O Cariri no tempo da monarquia
    Um assunto puxa outro. Pouca gente se dá conta disso. Durante os 518 anos de sua história, o Brasil (do descobrimento em 1500, aos dias atuais), viveu 389 anos da sua existência sob a forma de governo monárquica (entre 1500 a 1889). Ou seja, durante 75% da sua existência o Brasil nunca foi a república, que é hoje. Tanto tempo de monarquia deixou marcas que não se apagam facilmente. Isso nos remete a uma pergunta pertinente: Como era o Cariri durante os quase 200 anos (de 1700 a 1889), quando nossa pátria viveu sob o regime da monarquia?

Cariri real, Cariri verdadeiro
      Foi significante a presença do Cariri na época da monarquia. Basta lembrar que, em 1847, o engenheiro cratense Marcos de Macedo, deputado pela Província do Ceará, apresentou ao Imperador Dom Pedro II a ideia de transpor as águas do Rio São Francisco para o Rio Jaguaribe, a fim de amenizar os problemas gerados pela seca nordestina. Naquele tempo a ideia não foi concretizada porque a engenharia não tinha condições de realizar uma obra daquele porte. Basta dizer que a dinamite sequer tinha sido inventada.
      À época da monarquia, a sociedade caririense, diferente dos dias atuais, cultivava os valores morais e éticos, como o respeito à família, à propriedade privada e à Igreja Católica.  Dom Pedro II criou, em 1859,  uma Comissão Científica de Exploração (que os cariocas apelidaram de “Comissão das Borboletas”), composta por renomados especialistas,  destinada à investigação  científica, que realizou pesquisas  nas áreas de botânica, geologia, mineralogia, zoologia, astronomia, geografia e etnografia, no Ceará e na região do Cariri.
         Renato Braga assim escreveu sobre a Comissão científica: “Os viajantes foram bem acolhidos no Crato e demais localidades do Cariri. A todos (cratenses) causou estranheza, para não dizer espanto, a simplicidade de maneiras dos “doutores” a contrastar com a arrogância dos donos de engenho e autoridades (de Crato).

A mentalidade dos súditos caririenses
       O Prof. José Denizard Macedo de Alcântara (foto ao lado), erudito e douto cratense, dá o arremate sobre a mentalidade monarquista que imperava no Cariri. Escreveu ele (na apresentação do livro “Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro”, de Joaquim Dias da Rocha Filho):
       “Um bom entendimento dos fatos exige que se considere a realidade histórica, sem paixões nem preconceitos. A sociedade brasileira (e consequentemente a sociedade caririense) plasmou-se à sombra da monarquia, com todo o seu cortejo de princípios, hábitos, usos e costumes, não sendo fácil remover das populações esta herança cultural, tão profundamente enraizada no tempo; daí o apego (do povo) aos Soberanos, a aversão às manobras revolucionárias que violentavam suas tradições éticas e políticas”
       “Ora, dentre os dados da evolução histórica brasileira há que se ter em conta o seguinte: O centro de gravidade desta sociedade (aqui incluída a sociedade caririense), eminentemente rural, era sua aristocracia territorial, única força social de peso na estrutura nacional, repartida em clãs familiares, e profundamente adita ao Rei, de quem recebia posições públicas e milicianas, além de outras benesses, sentimento este que mais se avolumara com a transmigração da Família Real, em 1808 (de Portugal para o Brasil), pelo contato mais imediato com a Coroa, bem como pelos benefícios prestados ao Brasil, no Governo do Príncipe Regente Dom João VI”.

Como surgiu o Museu de Paleontologia
   O Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri está situado na cidade de Santana do Cariri e funciona como núcleo de pesquisa e extensão daquela universidade.
    Para tanto, dispõe de centro de pesquisa com laboratório, biblioteca e videoteca. Segundo seu criador – o Prof. Plácido Cidade Nuvens – a ideia de viabilizar esse museu nasceu no âmbito da programação das festividades do centenário do município de Santana do Cariri, em 1985.
    Exercendo o cargo de Prefeito, Plácido Cidade Nuvens enviou à Câmara Municipal mensagem com projeto de lei, a qual, depois de aprovada virou a Lei nº 197/85. Em 1991, o museu foi entregue à Universidade Regional do Cariri que, desde então, o administra e é responsável pela evolução e ampliação de suas instalações. O Museu de Paleontologia de Santana do Cariri – além de atração turística – é conhecido hoje em todo o Brasil.

Lendas e Mitos do Cariri 
Fundação Casa Grande de Nova Olinda

    Existe na cidade de Nova Olinda uma ONG denominada Fundação Casa Grande–Memorial Homem-Cariri. Criada em 1992, a partir da restauração da Casa Grande da Fazenda Tapera, esta construída em 1717, no lugar da aldeia dos índios Cariús-Cariris, onde hoje se ergue a cidade de Nova Olinda. 
    A Fundação Casa Grande faz um trabalho de preservação das lendas e mitos que contam a história do Homem-Cariri. Tornou-se, assim, uma escola de gestão cultural que tem como missão educar crianças e jovens através dos programas de Memória, Comunicação, Artes e Turismo. Os mitos, segundo Alemberg Quindins, fundador e presidente da Fundação Casa Grande são narrativas que possuem componente simbólico. Persiste no imaginário das camadas mais simples da população caririense, como acontecia com os povos da antiguidade.

Uma lenda que sobrevive: A Pedra da Batateira
 A nascente da Pedra da Batateira

    Na cidade de Crato, até décadas atrás, a população simples divulgava uma lenda: a de que os índios Cariris, aprisionados e escorraçados pelo povoador branco, haviam “encantado” (tapado) com uma gigantesca pedra, a grande nascente existente no sopé da Chapada do Araripe. Essa “Pedra da Batateira” (assim era chamada) continuou a barrar os milhões de litros de água daquela nascente, represando-as no subsolo. Mas um dia essa pedra não resistiria a força das águas represadas, cederia e inundaria o Crato inteiro e parte do vale do Cariri. Essa lenda era um terror para as crianças no início do século passado. Interessante que esse mito ainda persiste (com menor intensidade) mas, algumas pessoas residentes nos sítios ainda se recusam a morar na cidade de Crato, temendo a vingança da Pedra da Batateira...

Um homem importante para o progresso do Cariri: Dom Quintino
     Embora, nascido no sertão central do Ceará, o jovem Pe. Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva chegou ao Cariri tão logo foi ordenado sacerdote, em 19 de junho de 1887. E daqui nunca mais saiu. Inicialmente se fixou no distrito de Jamacaru (município de Missão Velha). Em 1889 foi nomeado Vigário de Crato. Nesta cidade permaneceu durante 40 anos, até sua morte em 29 de dezembro de 1929.
     Em 10 de março de 1915 foi nomeado primeiro bispo da nova Diocese de Crato, tomando posse em 1º de janeiro de 1916. Deu prioridade, no seu episcopado às causas espirituais. Foi, no entanto, o homem das grandes realizações materiais que modificaram o cenário social e econômico do Cariri.
     Fundou, em 1822, o Seminário Episcopal de Crato, tornando-se o pioneiro do ensino superior no interior do Ceará. Criou, em Crato, os Colégio Diocesano e o Santa Teresa de Jesus. Fundou, em 1921, a primeira instituição de crédito do Sul do Ceará, o Banco do Cariri, que prestou grandes benefícios ao comércio e à lavoura da região. Criou no seu episcopado 5 paróquias, entre elas a de Nossa Senhora das Dores de Juazeiro do Norte.
       A melhor biografia sobre Dom Quintino continua senda a escrita pelo Pe. Azarias Sobreira (“O primeiro Bispo de Crato”), onde destacou as virtudes morais, o espírito de pobreza e a coragem pessoal que ornavam a personalidade do ilustre prelado.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

 A primeira romaria feita a Juazeiro do Norte
      Capela de Nossa Senhora das Dores, da povoação de Joaseiro, onde em 1889 ocorreu o fenômeno do sangue na boca da Beata Maria de Araújo
     Em 6 de março de 1889, ocorreu um fato inusitado. Uma hóstia consagrada, dada em comunhão (pelo Pe.Cícero) à Maria de Araújo, transformou-se  em sangue na boca da Beata. A notícia correu – como um rastilho de pólvora – pelo interior nordestino.   Quatro meses depois do acontecido – num domingo, 7 de julho daquele ano –  aconteceu a primeira romaria feita a Juazeiro do Norte. Ela foi planejada e partiu de... Crato!
     Milhares de cratenses, sob a orientação do Mons. Francisco Rodrigues Monteiro, seguiram a pé de Crato até à “povoação do Joaseiro”.
   Amália Xavier de Oliveira, no seu livro “O Padre Cícero que eu conheci” descreveu aquela romaria. A conferir. “Do púlpito da Capela e Nossa Senhora das Dores de Juazeiro, povoação de Crato, (Mons. Monteiro) divulgou, oficialmente, perante mais de 3 mil pessoas os fatos extraordinários que se passavam ali, afirmando aos presentes, que o sangue verificado por todos, naquelas toalhas por ele apresentadas, era o próprio sangue de Jesus Cristo, arrancando dos presentes, copiosas lágrimas” E acrescentou:  "Se um dia eu negar o que vi que me falte e a luz dos olhos”.
    Anos depois, Mons. Monteiro, pressionado pelo Bispo do Ceará, Dom Joaquim Vieira, voltou atrás naquelas suas palavras, proferidas em Juazeiro. Amália Xavier de Oliveira concluiu assim seu escrito: “Mas, sem a luz dos seus olhos (Mons. Monteiro tinha cegado devido à catarata), veio ele muitas vezes a Juazeiro onde passava semanas e mais semanas, hóspede do Pe. Cícero, em casa da sua irmã Angélica, sob os cuidados de Giluca, uma Beata da família Pinheiro Monteiro que ali residia”.

Onde anda o “Projeto do Cariri”?
     Iniciado em 2002, o “Projeto Cariri” é fruto de um “Termo de Cooperação Técnica e Cientifica”, celebrado entre o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a URCA (Universidade Regional do Cariri). 
       Seu principal objetivo é a realização de estudos e registros do patrimônio imaterial do Cariri. O “Projeto Cariri” previa a implantação, em Juazeiro do Norte, do “Roteiro da Fé” (no percurso Basílica Menor de N.S. das Dores/Capela do Socorro/Colina do Horto/Santo Sepulcro). Previa, também, a divulgação das formas de Expressão, Saberes e Fazeres do Cariri, com destaque para a Festa do Pau da Bandeira de Barbalha; as tradições populares (bandas cabaçais, grupos folclóricos, escultores e santeiros de Juazeiro do Norte); a divulgação do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, dentre outras metas.
    No tempo em que o Prof. André Herzog foi reitor da URCA existia até um escritório do “Projeto Cariri” nas dependências daquela universidade. Depois do término da administração de André de Herzog, nunca mais se ouviu falar no “Projeto Cariri”. Será que ainda existe?

Uma preciosidade da riqueza do patrimônio histórico-religioso do Cariri
     Imagem primitiva de Nossa Senhora das Dores, venerada em Juazeiro do Norte a partir de 1827, ano de inauguração da capelinha construída pelo Brigadeiro Leandro
     Adquirida em Portugal, pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, a pequena imagem de Nossa Senhora das Dores foi venerada na capela primitiva da Fazenda Tabuleiro Grande, a partir de 1827. Tornou-se, desde aquela data, a Rainha e Padroeira da povoação do “Joaseiro”. A imagem primitiva (chamada antigamente pelo povo de “Carita”), recebeu a devoção dos juazeirenses durante 60 anos. Zélia Pinheiro, autora do opúsculo "Sesquicentenário de Fé", registra que a imagenzinha pontificou no altar das duas capelas de Juazeiro até 1887. Bom lembrar que em 19 de agosto de 1884, foi consagrada a nova capela, ampla e bonita – construída Pelo Padre Cícero –  que substituiu a primitiva, esta edificada pelo Brigadeiro Leandro. 
     Assim escreveu Zélia Pinheiro: (Até 1887) “Continuava como Padroeira Nossa Senhora das Dores (a “Carita”) e fora colocada no Altar (da nova igreja) a mesma imagem trazida de Portugal para a Capelinha da Fazenda Tabuleiro Grande. Era uma imagem em estilo bizantino, de madeira, muito bem esculpida, tendo setenta e cinco centímetros de tamanho e permaneceu no Altar-Mor até setembro de 1887. Naquele ano, a imagem antiga foi trocada pela nova, adquirida na França, que até hoje está lá”.
        A imagem primitiva de Nossa Senhora das Dores, que tem 191 anos, ainda existe,  em perfeito estado de conservação.

Escritores do Cariri: Padre Azarias Sobreira
      Azarias Sobreira Lobo nasceu no dia 24 de março de 1894, no então Sítio Timbaúba (hoje um bairro citadino) em Juazeiro do Norte. Nasceu no mesmo dia em que seu padrinho de batismo –  Padre Cícero Romão Batista –  completava 50 anos de idade. Era filho de um cratense – Pedro Lobo de Menezes, descendente do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro – e da professora juazeirense Carolina Sobreira. 
    Desde criança pensava em ser sacerdote. Ele foi o primeiro juazeirense a ser ordenado padre na então mais nova Diocese do Ceará, a de Crato, com 22 anos de idade, em 22 de abril de 1917.
    Pe. Azaria foi um exemplar sacerdote. Muito culto, era filósofo, educador, professor e escritor. Dedicou-se, especialmente, ao trabalho de ampla pesquisa e profunda análise sobre o Padre Cícero. Próximo da sua morte, escreveu: “Se, neste meu ablativo de vida, me perguntasse qual a marca que me parece mais saliente em meu espírito, eu não teria medo em responder: uma inata tendência para admirar. Não propriamente os que fizeram fortuna ou conseguiram altas posições sociais, e sim os que se impuseram pela coragem das convicções, pelo domínio de seus apetites desordenados, pela compaixão para com os injustiçados e oprimidos. ”
    Escreveu e publicou dezenas de trabalhos, artigos e alguns livros. Dentre suas obras podemos destacar os seguintes livros: "O Primeiro Bispo do Crato–Dom Quintino", "Tipos e Sugestões", "Monsenhor Tabosa, Apóstolo do Ceará", "Mensagem aos Protestantes", "Minha Árvore de Família", "Zuca Sampaio, um sertanejo de escol", "José Marrocos– Em Defesa de Um Abolicionista", "Uma Flor do Clero Cearense", "Enigma de Ontem e de Hoje", "Pontos de Português", "Sacerdote Modelo" e "O Patriarca de Juazeiro", sua obra-prima, publicada em 1969. Faleceu em Fortaleza, no dia 14 de junho de 1974.

Cariri vai produzir energia eólica
     A nota abaixo foi publicada na coluna de Egídio Serpa (“Diário do Nordeste”, 06-09-2018): “Em maio, a Cemig fez um leilão para a compra de energia. O grupo francês Quaran ganhou o leilão, que incluiu os projetos desenvolvidos pela Cortez Engenharia e a Braselco, com capacidade de 240 MW de geração eólica. Os parques serão instalados no Cariri e neles serão investidos R$ 1 bilhão.
       A Quadran, maior empresa francesa do setor, terá a parceria da dinamarquesa Vestas, cuja fábrica de Aquiraz será ampliada para produzir os novos aerogeraores de 4,2 MW. A implantação do projeto – que estará pronto em 2021 e terão o Cariri como sede – começará por Missão Velha e Porteiras, estendendo-se depois para Jardim, Barbalha e Crato”.

Crato tem o seu primeiro “arranha céu”
      Os grandes edifícios (aqueles que antigamente o povo chamava de “arranha-céu”) já são abundantes, desde algum tempo, em Juazeiro do Norte. Em Crato, segunda maior cidade da Região Metropolitana do Cariri, a construção do edifício Kariris Blue Tower, com 19 andares, está na reta final. 
       O edifício fica localizado no centro da cidade, na Rua André Cartaxo, próximo ao Mercado Municipal Walter Peixoto. O Edifício Kariris Blue Tower abrigará 205 salas, 9 lojas, salão de eventos na cobertura, dentre outras sofisticações, como um aquário ornamental no hall dos elevadores. A iniciativa privada é quem tem garantido o progresso de Crato nos últimos tempos.

Um caririense ilustre: Prof. José Bizerra de Britto
     Zuza Bizerra (assim era mais conhecido o Prof. José Bizerra de Britto) foi um dos homens de bem do Cariri. Nasceu no sítio Malhada, município de Crato, em 6 de junho de 1878. Vindo cedo para estudar na sua cidade natal, foi aluno do Prof. José Marrocos. Depois estudou no Seminário São José até o curso de Teologia. Preferiu a vida de leigo, mas chegou a ser – por longos anos – um dos professores daquele vetusto educandário católico, e outros colégios de Crato. 
    Era reconhecido como emérito educador, líder católico e jornalista. Deixou vasto trabalho, prestado a sua cidade natal, nesses 3 ramos da atividade humana. O Prof. Zuza Bizerra era uma pessoa de fino trato e dotado de honestidade a toda prova. Por isso foi homem de confiança dos dois primeiros bispos de Crato, Dom Quintino e Dom Francisco de Assis Pires. Nunca se preocupou em amealhar bens materiais, por isso sempre viveu pobre, recebendo o respeito e admiração da comunidade. 
     Foi um vocacionado ao jornalismo. Dirigiu por muito tempo os dois jornais da Diocese de Crato: ”A Região” e “A Ação”. Como rábula, exerceu a advocacia em Crato e nos municípios vizinhos. Quando do seu falecimento, o escritor J.de Figueiredo Filho publicou: “Passou a vida no Magistério e a espargir o bem, munido de inteligência privilegiada e fé inquebrantável. Só ensarilhou armas quando os anos não mais lhe permitiram trabalhar”.
   Tive o privilégio de conhecer e conviver com o Professor José Bizerra de Britto, ele na ancianidade e eu ainda menino. Morávamos próximo um do outro, na Avenida Teodorico Teles. Meu pai tinha uma profunda admiração pelo velho professor, que era reconhecido por todos como um homem de bem, um cidadão exemplar em todos os aspectos.
     Recordo-me de ter lido alhures um depoimento do fundador das universidades cearenses, o eterno e admirável Reitor Antônio Martins Filho, onde ressaltava as características do homem íntegro que foi o Professor José Bizerra de Britto. Martins Filho foi aluno do Professor Zuza, na extinta Escola Técnica de Comércio de Crato, e guardou do antigo mestre a imagem de um homem de caráter, digno, honesto, sereno, justo e caridoso.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Cariri, uma região privilegiada

Localizada no centro do Nordeste brasileiro, constituindo-se um oásis – pois cercado pela paisagem seca do árido sertão nordestino – o Cariri cearense é uma região privilegiada. Lá, fica a Chapada do Araripe, a qual, dentre vários atrativos, abriga a Floresta Nacional do Araripe, onde existem redutos da Mata Atlântica no Brasil. O leque do ecoturismo da Chapada do Araripe é variegado: a flora e a fauna complementam atrações, como as trilhas que são percorridas a pé ou de bicicleta; o rapel, o voo de parapente e até balonismo. Outros atributos da Chapada do Araripe são desconhecidos dos caririenses. Confira abaixo.

Bacia Sedimentar do Araripe, o berço da Paleontologia do Brasil 
Fóssil de um Rhacolepiscionar 
Historicamente, o berço da paleontologia do Brasil é a região da Bacia Sedimentar do Araripe. Isso se comprova com o primeiro o relato (e desenho) de um fóssil brasileiro, na publicação do livro “Viagem pelo Brasil” (Reise in Brasilien) editado entre 1823 e 1831, onde consta uma referência a um peixe “Rhacolepis’, encontrado numa concessão carbonática, na região da Barra do Jardim (atual cidade de Jardim).

A riqueza dos fósseis da Chapada do Araripe
É nessa Bacia Sedimentar que fica a Chapada do Araripe, com 165 Km de extensão, estendendo-se pelas divisas do Ceará, Piauí e Pernambuco. Ela é conhecida pela sua rica biodiversidade e considerada a região fossilífera mais rica do período Cretáceo, em todo o planeta. Explicou o paleontólogo Alexandre Kellner (em entrevista à revista “Galileu”, número de agosto de 2000) que “o clima árido contribuiu para a excelente qualidade da preservação dos fósseis, ali existentes". Há cerca de 100 milhões de anos, existiam na Chapada do Araripe pequenos lagos, ocasionalmente alimentados pela água do mar. “A baixa concentração de oxigênio, no fundo desses lagos, dificultou a proliferação de bactérias e, portanto, a decomposição da matéria orgânica. Escavações ali realizadas já revelaram 350 exemplares de pterossauros de 19 espécies diferentes, sem falar de outros fósseis de animais e vegetais".
José Flávio Vieira lançará este mês seu novo livro 
O escritor cratense José Flávio Vieira, que também é médico, lançará no próximo dia 28 de setembro, seu mais recente livro, “Dormindo à borda do abismo – A medicina no Cariri cearense (1800-1900”). O lançamento do livro acontecerá no Salão de Atos da Universidade Regional do Cariri - URCA, em Crato e será apresentado por Carlos Rafael Dias, professor do Curso de História dessa Universidade.
O livro, com mais de quatrocentas páginas, farta e ricamente ilustrado, é resultado de uma profunda e longa pesquisa a partir de fontes documentais primárias e bibliográficas, a exemplo dos jornais pertencentes à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, à Hemeroteca do Instituto Cultural do Cariri, ao Departamento Histórico Diocesano Padre Antônio Gomes de Araújo e à Biblioteca Menezes Pimentel, esta última localizada em Fortaleza. Pelo cuidado com que se revestiu todas as etapas de sua elaboração, da arrojada pesquisa, passando pela apurada escrita, feita em estilo peculiar do autor, até a sua editoração, o livro é um forte candidato a obra definitiva sobre esta temática regional.
Dividida em dezessete seções, e estes em inúmeros capítulos, a obra parte de um “continuum” dos principais acontecimentos da medicina na história geral para depois abordar os aspectos da colonização branca no Ceará e no Cariri, até chegar aos fatos e processos marcantes da conjuntura regional durante o século XIX. Nada passa ao largo de sua atenção, indicando a correlação existente entre os diversos contextos de uma região. Neste sentido, percebe-se que o autor não limitou seu enfoque à medicina em si, mas realizou um verdadeiro apanhado sobre a cultura regional, estabelecendo uma relação entre os vários campos da história: do econômico ao ambiental, do político ao religioso, do artístico ao científico, etc. Assim, sua narrativa tem a qualidade de atrair todos os tipos de leitores, pois segue o ritmo dos acontecimentos com precisão e é pintada com todas as nuanças possíveis de um panorama histórico que comporta infinitos e significantes detalhes.
Comparando a feitura do livro a um projeto arquitetônico, o autor revela que este é apenas “a antessala de uma casinha”, pois seu projeto é contar a história da medicina no Cariri até a década de 1960, atingindo “com sua torre, nuvens idílicas e nebulosas”. Não paira nenhuma dúvida de que ele atingirá o píncaro de sua ambição, visto ser dotado de disciplina e paixão inerentes aos grandes historiadores e literatos.
Com este lançamento, o público leitor, na amplidão que a expressão sugere, ganha uma obra que, ao nosso ver, se tornará referência para o estudo sobre a região do Cariri, no mesmo patamar do clássico “O Cariri”, de autoria de Irineu Pinheiro que, como J. Flávio, se dividia entre a profissão médica e o diletante, mas profícuo e competente ofício de pesquisar e escrever sobre a história regional.

A “Imperatriz do Crato”
O carro-andor que conduziu, pelas ruas centrais da cidade, a imagem histórica de Nossa Senhora da Penha – na procissão último dia 1º de setembro, – tinha cerca de 4 metros de altura. A decoração do andor foi inspirada no velho Hino da Padroeira do Crato, também chamado “Imperatriz Constante”, cantado pelos fiéis cratenses nos tempos da Monarquia e nas primeiras décadas da atual fase republicana.
Por que, em Crato, Nossa Senhora era chamada de “Imperatriz” e não de Rainha? Devido à diferença que existe entre um Rei e um Imperador. Um Rei governa um reino, geralmente pequeno. O Imperador é soberano de uma grande extensão de terra. Entra aí, principalmente, a relevância da extensão territorial.
 Por exemplo, a Rússia era um Império. A  Alemanha e a união da  Áustria-Hungria também. País de dimensões continentais, o Brasil, ao tempo da monarquia, era reconhecido, mundo afora, como um Império. Tivemos dois imperadores e três imperatrizes. Daí porque os cratenses daquele tempo não chamavam Nossa Senhora da Penha de “Rainha” e sim de “Imperatriz”.

O hino "Imperatriz Constante"
A tradição popular atribui a autoria desse antigo hino a Nossa Senhora da Penha, ao então Vigário de Crato, e depois primeiro bispo desta Diocese, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva. A estrofe “Mãe Imaculada, sois no céu e na terra Imperatriz constante! ” foi escolhida como temática para o andor de 2018. A imagem histórica, no andor, foi abrigada num castelo estilizado – representando a realeza de Maria Santíssima – cercada por anjos e flores (gérberas, rosas e margaridas). As centenas de rosas que ornamentaram o carro-andor foram doadas pelo povo cratense.  
Em 2008, o então pároco Pe. Edimilson Neves (hoje Bispo de Tianguá) mandou gravar um CD que contém o antigo e o atual Hino de Nossa Senhora da Penha. Esse CD, gravado pelo Coral de Divani Cabral, ainda se encontra à venda na lojinha da catedral.

Memória – Um caririense ilustre: João Gonçalves de Sousa 
Nasceu no distrito de Mangabeira (município de Lavras da Mangabeira) em 20 de agosto de 1913. João Gonçalves de Sousa foi uma das personalidades cearenses de destaque nacional no século XX. De origem humilde, numa visita pastoral que o segundo Bispo de Crato – Dom Francisco de Assis Pires – fez à Mangabeira, o pai de João Gonçalves lhe falou da inteligência do filho. E pediu ao bispo que o levasse para estudar em Crato, no que foi atendido. Estudou no Colégio Diocesano de Crato (onde trabalhou como contínuo).
Depois rumou para Salvador (BA) levando cartas de recomendações de Dom Francisco. Passou algum tempo na capital baiana. De lá, seguiu para o Rio de Janeiro. Conseguiu aprovação em dois vestibulares: Agronomia e Direito. Concluiu Ciências Jurídicas na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.
Dotado de perseverança e inteligência privilegiada, João Gonçalves chegou a ser alto funcionário da Organização dos Estados Americanos– OEA, em Washington (EUA). Tinha mestrado em Sociologia Rural, pela Wiscousin University (EUA), onde estudou de 1944 a 1946.  Escreveu alguns livros, dentre eles: “The Regional Aproach in Exploring The Northeastern Section of Brasil” (sua Tese de Doutorado, feito nos EUA, em 1956); “Migrações Nordestinas” de 1957; “Algumas Experiências Extracontinentais de Reforma Agrária”, de 1963; “Nordeste Brasileiro: Uma Experiência de Desenvolvimento regional”, de 1979.João Gonçalves de Sousa foi Superintendente da SUDENE (1964-1966) e Ministro do Interior (1966-1967).
Teve seu nome cogitado nas articulações para a escolha indireta do Governador do Ceará, para o período 1975-1979. Era apoiado pelo então governador César Cals e pelo General Golberi do Couto e Silva, mas o escolhido foi Adauto Bezerra. João Gonçalves de Sousa nunca perdeu o contato com suas origens. Quando esteve no poder beneficiou sua vila Mangabeira com alguns melhoramentos. Faleceu em 16 de janeiro de 1979, no Rio de Janeiro.
Escritores do Cariri: Joaryvar Macêdo
Joaquim Lobo de Macêdo (mais conhecido por Joaryvar Macedo) nasceu em Lavras da Mangabeira em 20 de maio de 1937 e faleceu em Fortaleza em 29 de janeiro de 1991.Foi poeta, historiador e um dos maiores intelectuais o Cariri. Escreveu e publicou quase 50 trabalhos, alguns relevantes, dentre os quais vale citar:  “Caderno de Loucuras” (poesias); “Os Augustos”; “Um Bravo Caririense”; “A Estirpe da Santa Teresa”; “Povoamento e povoadores do Cariri”; “Império do Bacamarte” e “Temas históricos e regionais”.
Além de professor na Faculdade de Filosofia de Crato e nos principais colégios de Crato e Juazeiro do Norte, Joaryvar foi fundador do Instituto Cultural do Vale Caririense–ICVC, com sede em Juazeiro do Norte, instituição por ele dirigida durante 10 anos. Foi Secretário da Cultura do Estado do Ceará (1983–1987). Pertenceu à Academia Cearense de Letras, Instituto do Ceará, Instituto Cultural do Cariri, Instituto Genealógico Brasileiro, Academia Internacional de Ciências Humanísticas e membro-correspondente de numerosas instituições culturais do Brasil e do exterior. Foi agraciado com 12 Comendas, Títulos e Honrarias, dentre elas a Medalha José de Alencar do Governo do Estado do Ceará.

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