segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Caririenses ilustres: Padre Francisco Gonçalves Pita
  Nasceu em Missão Velha, no dia em 29 de maio de 1895, filho de Fenelon e Julieta Gonçalves Pita. Em 1909 vamos encontrá-lo estudando no Seminário São José de Crato. Depois foi aluno do Seminário da Prainha, em Fortaleza. Recebeu a ordenação presbiteral em 27 de fevereiro de 1921. Foi logo nomeado Vigário da Paróquia de São Vicente Férrer, de Lavras da Mangabeira, onde permaneceu até dezembro de 1936, retornando a Crato. 
 Quando de um dos fechamentos do Seminário São José, funcionou naquele edificio  o Ginásio São José. Fechado este, Pe. Francisco Pita, com recursos próprios e ajuda dos pais que eram pessoas ricas em Missão Velha, adquiriu um prédio na esquina da Avenida Duque de Caxias com Rua Nelson Alencar e lá fundou e fez funcionar o antigo Ginásio do Crato. Ali, Pe. Francisco Pita  lecionou Geometria, Álgebra, Aritmética, História Natural Física e Química.
 Tempos depois, foi aprovado para ser professor do Colégio Militar de Fortaleza. Deixando Crato,  vendeu o seu Ginásio à Diocese, o qual passou a se chamar Colégio Diocesano de Crato. 
  Em Fortaleza, foi capelão do Colégio Militar  e da igreja de São Pedro. Primeiro pároco da nova Paróquia de Santa Luzia (fundada em 13.03.1942). Ensinou língua portuguesa do Colégio Militar. Recebeu o título de Monsenhor, que lhe foi  concedido pelo Papa Pio XII. Faleceu na capital cearense, em 23.11.1969, vítima de atropelamento. É patrono da Cadeira de nº 16 do Instituto Cultural do Cariri, com sede em Crato
      
História: sobre o povoamento do Cariri

       Teve início, provavelmente por volta de 1703, o povoamento do extremo sul do Ceará, quando criadores baianos e sergipanos – seguindo o caminho dos rios, que eram então abundantes – chegaram a esta região. Vinham, com seus rebanhos, pela ribeira do Rio Salgado e Riacho dos Porcos. Alguns se fixaram inicialmente na povoação de São José dos Cariris Novos, atual cidade de Missão Velha.
                                                                        Primitivo engenho de rapadura do Cariri   

        Donde se conclui que a primeira exploração econômica do Cariri foi a pastoril. Somente por volta de 1718 (para alguns historiadores), ou 1738 (para outros), descobriu-se a vocação canavieira desta parte do Ceará, graças às amostras de cana-de-açúcar trazidas, provavelmente, da Bahia ou da Zona da Mata de Pernambuco. Teve início, naquele momento, a predominância da agricultura, sobre as atividades pastoris no Cariri cearense.

A presença de famílias da Província de “Sergipe del Rey” nessa povoação
                 Antigo Brasão de Armas de Sergipe del Rey, na época da dominação holandesa

       É da lavra do Monsenhor Francisco Holanda Montenegro o melhor escrito sobre a presença de famílias sergipanas na povoação do Cariri. No livro “As Quatro Sergipanas”, Mons. Montenegro deixou para a posteridade suas pesquisas e interessantes descobertas. E fê-lo arrimado em alentados dados históricos, onde prova que nas linhagens da “Gens Caririenses” estavam troncos familiares provenientes da então Província de Sergipe del Rey. 
 Bastaria recordar aqui a ascendência do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro – o “Contrarrevolucionário do Cariri de 1817”, considerado, também, o fundador da cidade de Juazeiro do Norte. O lendário Brigadeiro Leandro era filho do sergipano Antônio Pinheiro Lobo e Mendonça e da pernambucana Joana Bezerra de Menezes. Descendia ele – em linha direta – do português Diogo Álvares (que ficou conhecido pelo nome de "Caramuru") e da índia Paraguaçu (convertida ao catolicismo e batizada em 1528, na Catedral Saint-Malo, na França, com o nome de Catherine du Brésil). Reza a tradição ter sido esse o primeiro casal cristão brasileiro. O livro de Mons. Montenegro, no entanto, tem vasto inventário de outras famílias sergipanas que povoaram o Cariri cearense.

Sobre o Brigadeiro Leandro
Livro "As Quatro Sergipanas", da lavra de Monsenhor Francisco Holanda Montenegro

          Monsenhor Francisco Holanda Montenegro, no seu livro "As Quatro Sergipanas", descreve assim o perfil moral do fundador de Juazeiro do Norte: “... a relevar o nome do mais ilustre dos cratenses, o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, o nume tutelar dos Bezerra de Menezes do Cariri. Ele se tornou grande, primus inter pares, pela retidão de caráter, pela nobreza de sentimentos, pela vida exemplar de que era dotado. Homem de Deus, espírito límpido e transparente, franco, sincero, leal. A par de sua honestidade, corriam parelhas a prudência, o equilíbrio e o bom senso."
 O Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro nasceu no sítio Moquém, zona rural de Crato, em 5 de dezembro de 1740. A historiadora Amália Xavier de Oliveira (uma das primeiras a defender o Brigadeiro como fundador de Juazeiro do Norte) argumentou que isso ocorreu porque, dentre suas várias propriedades rurais, o Brigadeiro escolheu uma delas para viver seus últimos dias. Era a Fazenda Tabuleiro Grande, (localizada onde hoje se ergue a cidade de Juazeiro do Norte) assim descrita por Amália:

As extensas terras do Brigadeiro Leandro
    Juazeiro do Norte em 1827, numa pintura da artista plástica Assunção Gonçalves. A casa com pequeno alpendre e um banco na frente, era a casa do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro.

 Conforme a escritora Amália Xavier de Oliveira: “... imensa extensão de terra, partindo do município de Crato e espraiando-se em direção à serra de São Pedro, era a Fazenda Tabuleiro Grande, pertencente ao Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro e que, portanto, fazia parte da gleba de terra do engenho Moquém que seus avós doaram aos seus pais como dote, quando eles se casaram. O ponto mais pitoresco da fazenda era uma ligeira elevação do terreno, próximo ao rio Salgadinho, onde havia três grandes juazeiros, formando um triângulo e sobressaindo, entre os demais, pelo tamanho de sua fronde e pela beleza do verde de sua clorofila. Sob esta fronde acolhedora, procuravam abrigo os viajantes feiristas, que, de Barbalha, Missão Velha e outras imediações se dirigiam a Crato para vender seus produtos e comprar mantimentos para a semana (...)

 Como Juazeiro do Norte surgiu
  E continua Amália: "Ordenara-se Sacerdote o Pe. Pedro Ribeiro de Carvalho, neto do brigadeiro, porque filho de sua primogênita, Luiza Bezerra de Menezes e de seu primeiro marido, o Sargento-mor Sebastião de Carvalho de Andrade, natural de Pernambuco. Para que o padre pudesse celebrar diariamente sem lhe ser necessário ir a Crato, Barbalha ou Missão Velha, a família combinou com o novel sacerdote a ereção de uma capelinha, no ponto principal da Fazenda perto da casa já existente".
  Em 15 de setembro de 1827 foi lançada a pedra fundamental da capelinha de Nossa Senhora das Dores. Assistiu a essa solenidade o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, aquela época caminhando para os 87 anos de idade. A imagem de Nossa Senhora das Dores, destinada à capelinha, foi adquirida pelo brigadeiro em Portugal e ainda hoje é conservada, em excelente estado, na Casa Paroquial de Juazeiro do Norte.

Fato histórico pouco divulgado: Padre Cícero era um “Bezerra de Menezes”
 Também o Padre Cícero Romão Batista tinha ascendência sergipana.     

 Deve-se aos pesquisadores Renato Casimiro e Daniel Walker a constatação de que, dentre os ancestrais do Padre Cícero Romão Batista, alguns são do clã Bezerra de Menezes. Num livro escrito por esses dois historiadores (“A Família Bezerra de Menezes”, ABC Editora, Fortaleza, 2011) consta: 

“Alguns ancestrais do Pe. Cícero pertenciam à família Bezerra de Menezes. Quem lê estudos mais aprofundados sobre a biografia de Cícero Romão Baptista, o padre secular que revolucionou a Povoação do Joaseiro, entre 11 de abril de 1872 – quando chegou na povoação, e 20 de julho de 1934, quando falece – deve ter encontrado alguns destes registros. As suas tetravó e trisavó maternas, respectivamente, Petronila Bezerra de Menezes e Ana Maria Bezerra de Menezes, filha de Petronila, eram relacionadas por genealogistas como oriundas da contribuição étnica da família, dos troncos existentes entre velhos povoadores da Bahia, de Pernambuco e de Sergipe especialmente.
  No desenvolvimento genealógico desta família, agora é oportuno salientar que, o nono filho do casal Bento Rodrigues Bezerra e Petronila Velho de Menezes, se não teve uma grande importância no povoamento do Cariri, menor não é o significado de sua descendência, especialmente, para Juazeiro do Norte, pois representou o berço do patriarca na extensa Nação Romeira, o reverendíssimo Padre Cícero Romão Baptista. Assim:

1.    João Bezerra de Menezes matrimoniou-se com Maria Gomes, e foram pais de:
2.    Petronila Bezerra de Menezes que casou com o Cap. João Carneiro de Morais, e geraram:
3.    Ana Maria Bezerra de Menezes, que desposou o Cap. Francisco Gomes de Melo, pais de:
4.    José Gomes de Melo, capitão, de cujo enlace com Ana de Farias, tornaram-se pais de:
5.    Vicência Gomes de Melo, que uma vez casada com José Ferreira Castão, foram pais de:
6.    Joaquina Vicência Romana (ou Joaquina Ferreira Castão – Dona Quinô), de cujo casamento com Joaquim Romão Baptista Mirabeau, foram pais de:
7.    Padre Cícero Romão Baptista”.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

De luto o patrimônio ecológico do Cariri: fogo trouxe destruição ao Parque Estadual do Sítio Fundão
                               O que restou do velho "engenho de pau" do Sítio Fundão após o incêndio

   A cidade de Crato, e toda a região do Cariri, ficaram mais pobres – no último sábado, 3 de novembro – devido a um incêndio – cujas causas ainda não foram apuradas – que destruiu toda a estrutura do “engenho de pau" existente naquela reserva ecológica. O engenho destruído, que era movido a tração animal, produziu rapadura até 1944. O incêndio destruiu ainda cerca de dez hectares da floresta nativa daquela reserva, cuja flora preservavam os biomas Caatinga e Cerrado e remanescentes da Mata Atlântica.

Onde está localizado o parque
    O Parque Estadual do Sítio Fundão fica localizado na área urbana da cidade, e contribui para a preservação de aves e animais silvestres, dentre eles saguis, lagartos em maior escala, como também serve de habitar para raros tatus, tamanduás e veados que já foram vistos na sua área de 94 hectares.

Quando o parque foi adquirido pelo Governo do Ceará
 O Parque Estadual Sítio Fundão foi criado pelo Governo do Estado do Ceará, em 05 de junho de 2008. Lá podíamos contemplar a beleza exuberante da sua flora. O parque abriga, ainda, parte do território do Geossítio Batateira, integrante do   Geopark Araripe. Era comum para lá se dirigirem comitivas de alunos das nossa rede escolar para atividades de Educação e interpretação ambiental, recreacionais e pesquisa científica.

 Quando da sua criação pelo Governo do Ceará, em 2008, foi inventariado o seguinte patrimônio do Parque Estadual do Sítio Fundão:
 1) Uma murada de pedra e cal erguida por ordem do imperador D. Pedro II, cujos trabalhos foram executados por negros escravos;
 2) Um engenho de madeira com tração animal que funcionou puxado por cavalos ou junta de bois, construído em 1904 e que representa um símbolo da época áurea da produção rapadureira caririense, mantido em funcionamento até o ano de 1944;
3)A casa onde Seu Jeferson, antigo proprietário, morava e que, curiosamente devido à tranquilidade do local, não tinha portas nem janelas;
4) Uma espaçosa casa abandonada, construída por Seu Jeferson com o objetivo de ser sua morada, porém nunca habitada; 
5) Uma casa de taipa em 1° andar, edificação que se destaca pela raridade do modelo construtivo, com alpendre elevado, escada em parafuso e piso superior feito em madeira, planejada por Seu Jefferson e construída para um dos seus filhos.
                                       Casa de taipa construida por Jeferson da Franca Alencar

Preservando a vegetação primitiva do Cariri
 O Sítio Fundão é um pedaço preservado da vegetação do Cariri. E isso se deve ao Sr. Jeferson da Franca Alencar, que manteve incólume – até 1986, ano do seu falecimento – a área florestada, e proibia a caça de aves e animais silvestres naqueles 94 hectares.  Ademais, graças também ao Sr. Jeferson da Franca Alencar, foram preservados no Sítio Fundão outros bens históricos (todos tombados pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará) a exemplo da Casa de Taipa (chamada hoje “Centro de Visitantes”) composta de piso inferior e superior, além de uma parede de pedras. No interior do Parque Estadual do Sítio Fundão corre parte do Rio Batateira, que banha aquele espaço e mantém verde a vegetação na parte do árido verão nordestino, que se estende pelos meses setembro/dezembro de cada ano.

Uma área para entrar em contato com a natureza

        Ressalte-se que, até a semana passada – antes da ocorrência do incêndio – o Parque Estadual do Sítio Fundão disponibilizava cerca e 3,5Km de trilhas e circuito de bicicleta para os visitantes. Em 2017, aquela reserva ecológica recebeu a visita de cerca de 3.700 pessoas. Ela ficava aberta ao público no período das 6h às 9h e das 15h30 às 17h30. Não era cobrado ingresso dos visitantes, que tinham uma equipe de 11 funcionários para servirem de cicerone no passeio pelo sítio. 

Dom Luís Antônio dos Santos, 1º Bispo do Ceará, a quem o Cariri deve muito do seu progresso
 Antes mesmo de visitar Crato, pela primeira vez, Dom Luís Antônio dos Santos já havia feito um ato concreto em defesa da saúde dos seus diocesanos residentes no Cariri. Em maio de 1862, ocorreram em Crato os primeiros casos de cólera-morbo, que viria a provocar a morte de cerca de 1.100 cratenses. O historiador Irineu Pinheiro fez o seguinte registro no seu livro Efemérides do Cariri, à página 148: “1862, 17 de Junho – Fundado em Crato, na estrada entre esta cidade e Juazeiro, por ordem de Dom Luiz Antônio dos Santos, primeiro bispo do Ceará, o cemitério dos coléricos, o qual mediu vinte braças de largura e quarenta e três de profundidade. Foi benzida em frente dele pelo padre João Marrocos Teles uma cruz de madeira, mandada erguer pelo pároco do Crato, Manoel Joaquim Aires do Nascimento. Morreram da epidemia o padre Marrocos e Joaquim Romão Batista, pai do Padre Cícero Romão Batista”. 
  Homem culto e, ao seu tempo, bem informado, Dom Luís sabia que o Cemitério Bom Jesus dos Pecadores (hoje denominado de Nossa Senhora da Piedade) de Crato não era o local certo para sepultar as vítimas de cólera-morbo, pois isso poderia contribuir para alastrar o contágio da moléstia. Para tanto, em 1862, determinou a improvisação de novo cemitério, distante, dois quilômetros do centro de Crato, no local onde hoje fica a subestação de energia da COELCE, no bairro São Miguel.

A grande obra de Dom Luís em Crato: o Seminário São José
                                     Seminário São José de Crato nos seus primórdios

   O Seminário São José de Crato foi fruto de um desejo de Dom Luís, com o objetivo de ampliar a divulgação da Boa Nova de Cristo e salvar almas, no território da sua vasta diocese, a qual, à época, compreendia todo o Estado do Ceará.  Para concretizar esse anelo, e depois de ter recebido sugestão nesse sentido, em 1871, do recém-ordenado Padre Cícero Romão Batista, Dom Luís encaminhou – em 1872 – dois padres lazaristas, – padres Guilherme Van den Sandt (alemão) e José Joaquim de Sena Freitas (português nascido no arquipélago dos Açores) – para realizarem uma missão religiosa, em terras do Cariri cearense. Os dois missionários lazaristas ficaram encantados com o progresso da cidade e com o entusiasmo com que a população acolheu as missões.
  Os dois padres receberam orientação para angariar doações visando à construção de um Seminário Diocesano, na cidade de Crato. Depois disso Dom Luís Antônio enviou para Crato o padre italiano Lourenço Vicente Enrile, para acompanhar a construção do vasto prédio, que seria erguido em grande terreno doado pelo coronel Antônio Luís Alves Pequeno, no aprazível subúrbio, à época conhecido como Grangeiro, hoje denominado bairro do Seminário. Logo faltaram os recursos para dar continuidade à construção. Então Dom Luís Antônio resolveu deslocar-se de Fortaleza para Crato, ficando ele próprio à frente dos trabalhos. Aqui chegou no dia 31 de dezembro de 1874. E só retornou a Fortaleza em julho de 1875, deixando em funcionamento (até os dias atuais) o Seminário São José de Crato.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Homens que fizeram Juazeiro do Norte
 Será lançado neste mês de novembro, no Memorial Pe. Cícero (falta marcar a data e a hora), a 2ª edição do Livro “Gente de Expressão” de Francisco Luiz Soares. Trata-se de uma obra que resgata a participação de alguns cidadãos no crescimento e progresso de Juazeiro do Norte. São biografados homens, residentes em Juazeiro do Norte, que não viveram apenas para si, nem priorizaram ganhar apenas o próprio sustento. Eles prestaram um serviço nobre e desinteressado, contribuindo para a Terra do Padre Cícero chegar ao nível de desenvolvimento que hoje ostenta.
 Dentre esses homens, o autor escreveu sobre os falecidos Padre Cícero Romão Batista, José Geraldo da Cruz, Dorotheu Sobreira da Cruz, Joaquim Cornélio, Raimundo Adjacir Cidrão, Odílio Figueiredo, Edmundo Morais, Felipe Neri, Luciano Theophilo de Melo, Aderson Borges de Carvalho, Antônio Corrêa Celestino, dentre outros.
 No livro é feito ainda o resgate da criação e atuação da Associação Comercial de Juazeiro do Norte.

Chegou a temporada do fim-do-ano trazendo mais flores
 O final do ano está chegando! Esta temporada, na região do Cariri, nos traz a floração dos flamboyants, árvores que os antigos caririenses chamavam “sombrião”. Existem pessoas que não percebem os flamboyants floridos nos campos ou nas cidades. Essas pessoas são muito ocupadas para perder tempo observando a mudança do tempo e a floração das árvores. No entanto, indiferente à reação dessas pessoas, o fim-do-ano está chegando e com ele as flores dos flamboyants, embelezando, ainda, mais a já bonita paisagem do Cariri...

Agostino Balmes Odísio o italiano que embelezou as cidades do Cariri
                                              Monumento a Cristo Rei, no centro de Crato

  Italiano de nascimento, Agostinho Balmes Odísio foi um escultor e arquiteto que viveu seis anos no Cariri, entre 1934 e 1940. Neste curto espaço de tempo, ele foi autor de bom número de obras de arte implantadas no Cariri, sendo a mais conhecida a Coluna da Hora, com 29 metros de altura, encimada pela estátua do Cristo Redentor, com seis metros — totalizando 35 metros — ainda hoje considerada o ícone da cidade de Crato.
Coluna da Hora, na Praça Padre Cícero em Juazeiro do Norte
 Agostinho Balmes nasceu em 1881, em Turim, norte da Itália, e formou-se pela Escola de Belas Artes daquela cidade. Na infância, foi aluno da Escola Profissional Domingos Sávio, mantida por São João Bosco. Em 1912, ele esculpiu um busto do Rei da Itália, Vito Emanuel II, conquistando o 1º lugar numa disputa por uma bolsa de estudo em Paris. Na Capital francesa, foi discípulo de August Rodin, considerado, ainda hoje, o maior escultor contemporâneo. Em 1913, com 32 anos de idade, Agostinho Odísio resolveu emigrar para a Argentina, onde residia um irmão dele. Entretanto, por motivos ignorados, desembarcou no Porto de Santos, em São Paulo e permaneceu no Brasil até sua morte.
 Durante 20 anos, produziu dezenas de obras de arte nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Em 1934, devido a problemas de saúde, foi aconselhado a residir no Nordeste, por causa do clima quente da região. Por acaso, leu na imprensa sobre a morte do Padre Cícero e, vislumbrando oportunidade de negócios – por conta da religiosidade da cidade – veio para Juazeiro do Norte, onde residiu até 1940.
  Agostinho Balmes foi também responsável pelo projeto do Palácio Episcopal de Crato, e da Coluna da Hora, na Praça Padre Cícero, bem domo da ampla reforma da Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, ambas localizadas  em Juazeiro do Norte. São dele os diversos projetos de reforma de Igrejas e altares do Cariri, com destaque para as fachadas da igrejas-matriz de Milagres e Missão Velha.

 Estátua de Padre Cícero, em frente à capela do Socorro, em Juazeiro do Norte

       Esculpiu aqui vários monumentos. Dentre eles, o de Dom Quintino (na Praça da Sé em Crato), e o do Padre Cícero (em frente à capela do Socorro, em Juazeiro). Introduziu o uso de mosaico e do marmorite nos pisos das casas do Cariri.
















A ideia do Geopark Araripe
  Surgiu da iniciativa do então governador do Ceará, Lúcio Alcântara, (2002-2006), após sugestão do então reitor da Universidade Regional do Cariri, Prof. André Herzog. O professor da URCA, geólogo Alexandre Magno Feitosa Sales foi uma peça fundamental na consolidação da ideia do Geopark Araripe, desde o nascedouro até o reconhecimento pela UNESCO. Para a concretização do Geopark Araripe foi assinado um “Convênio de Cooperação entre a Universidade de Hamburgo (Alemanha) / URCA/ DAAD”, sob a coordenação do Prof. Dr. Gero Hillmer, Curador do Instituto e Museu de Paleontologia da Universidade de Hamburgo.

Como surgiram os “geoparks”
 A ideia surgiu durante a realização da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Meio Ambiente, no Rio de Janeiro no ano de 1992. O megaevento ficou conhecido como a ECO-92. Na ocasião, os temas de proteção e preservação ambiental passaram a ser destaque dentre as principais prioridades da humanidade. Esses temas transformaram-se em palavras de ordem em todos os roteiros de desenvolvimento, por meio de documentos denominados “Agenda 21”.

Sobre o Geopark Araripe
                                          Geotope da Colina do Horto em Juazeiro do Norte

 Localizado no extremo-sul do Cariri, o Geopark Araripe  é o primeiro parque geológico das Américas reconhecido pela UNESCO. Inicialmente, parte de seu território já constituía a Área de Proteção Ambiental Chapada do Araripe, criada em 1997, e localizada no planalto próximo à divisa dos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco.
 O Geopark Araripe é a maior referência turística-ambiental do Cariri e um potencializador do desenvolvimento regional. Ele foi o primeiro do Brasil a fazer parte, da Rede Global de Geoparques credenciados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). A área compreendida pelo Geopark Araripe é de aproximadamente 4.000 km², e abrange territórios dos municípios Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri.

A imensa importância do Geopark Araripe
                                                   Sede do Geopark Araripe, na cidade de Crato

 Hoje reconhecido – pela UNESCO – como “Patrimônio da Humanidade”, o Geopark Araripe, abrange a Bacia Sedimentar do Araripe e possui a maior reserva de registros fósseis planeta referentes ao Período Cretáceo Inferior.  Naquele espaço foram achados registros geológicos e paleontológicos inéditos desde os primeiros anos do Século XIX, com registros entre 110 e 70 milhões de anos de existência, em excepcional estado de preservação e diversidade. No Bacia Sedimentar do Araripe está mais de um terço de todos os registros de pterossauros descritos no mundo; mais de 20 ordens diferentes de insetos e a única notação da interação inseto-planta. Há similares destas mesmas espécies no continente Africano, comprovando cientificamente que os continentes um dia foram ligados, ou seja, formavam um só continente. Este chamado pelos cientistas de continente primaz Gondwana.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

História do Cariri: Dona Matildes, a inimiga que protegeu Bárbara de Alencar
 Casa de Dona Bárbara de Alencar, localizada na praça da Sé, em Crato . O imóvel foi destruído para dar lugar ao atual prédio da Coletoria de Rendas da Secretaria da Fazenda do Ceará

    O episódio que, de forma resumida, relato abaixo está – com mais detalhes – nas páginas 70 e 71 do livro “As Quatro Sergipanas”, do sacerdote e historiador Mons. Francisco Holanda Montenegro.
   Dona Bárbara de Alencar tinha com Dona Matildes Telles, esposa do Capitão Manoel Joaquim Telles e mãe do Juiz Ordinário de Crato, este destituído do cargo pelos membros da família Alencar, líderes da Revolução Pernambucana de 1817, no Cariri cearense – uma intriga e rivalidades antigas por causa de política. Não se entendiam, não se cumprimentavam e nem se falavam.
   Rechaçada a Revolução, pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, os filhos de Dona Bárbara foram presos e ela escondeu-se dos inimigos pensando escapar da prisão.  Na madrugada de 21 de maio de 1817, Dona Bárbara encontrava-se escondida nas imediações do Sítio Pau Seco, propriedade sua, onde passou o dia oculta num canavial. À noite saiu do esconderijo, e tendo perdido a esperança de ver voltar seu fiel escravo, o negro Barnabé, seguiu vagando sem destino pelas matas que existiam à época em torno da Vila Real do Crato. Na sua andança veio parar no Sítio Miranda, mais precisamente nos fundos da casa de sua inimiga, Dona Matildes. Soube que estava ali porque viu uma escrava da casa apanhando água. A escrava reconheceu Dona Bárbara e foi avisar a sua patroa.
  Dona Bárbara apresentou-se a Dona Matildes. Esta última, com o coração aberto a tantos sofrimentos porque passava a família Alencar, abraçou a sua inimiga com lágrimas de ternura e num gesto magnânimo de generosidade, respeito e fidalguia levou-a para abriga-la na sua casa. Fez mais Dona Matildes. Mandou chamar seu filho, o Juiz Ordinário do Crato, que tinha sido readmitido no cargo, e disse a ele:
– Mande queimar todos os papéis e atas arquivados pelos contrarrevolucionários que comprometam Dona Bárbara e seus filhos
 Tempos depois, o futuro Senador e Presidente da Província do Ceará, José Martiniano de Alencar, filho de Dona Bárbara, preso nos cárceres do litoral teria afirmado: “Sem provas nós não poderíamos ser licitamente condenados à morte”.

A Chapada do Araripe é um mundo
   O texto abaixo abre o site do Geopark Araripe:
   “A Chapada do Araripe é uma grande muralha que divide os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí. Em seu entorno há inúmeras fontes de água, graças às rochas que a formam, e que têm uma função similar à de uma esponja. Com água farta, está sempre verde, mesmo em tempos de seca persistente. Com um bioma predominante de caatinga, e áreas de cerradão e mata atlântica, possui como símbolo uma espécie endêmica de pássaro (só encontrada por lá), o pequeno Soldadinho do Araripe, com sua crista vermelha que parece um quepe”.

Flores da Chapada do Araripe
  A arquiteta Maria Elisa Costa – filha do urbanista Lúcio Costa, que ajudou a planejar Brasília – era amiga da ex-reitora da URCA, Violeta Arraes. Esta convidou Elisa para projetar os jardins da reitoria da Universidade Regional do Cariri, em Crato. Ainda hoje Elisa guarda boas recordações do trabalho que fez aqui. Entrevistada pela revista Veja, Elisa declarou: "Descobri um Brasil que o litoral não conhece. Quem imaginaria, por exemplo, que há tantas flores no Crato?".  
 Informamos que o Guia de Plantas da Floresta Nacional (Flona) do Araripe-Apodi está disponível no site do The Field Museum, de Chicago (EUA). O endereço virtual hospeda guias de plantas, animais, algas, fungos e liquens de várias regiões do mundo.


                                                  Flor do maracujá. Foto de Jackson Bantim
A foto acima, com flores da Chapada do Araripe foi feita por Dihelson Mendonça.

Um valoroso caririense: Huberto Cabral
 As cidades são feitas primeiramente pelas pessoas. Pois seus moradores falam mais à alma do que os prédios e os cartões-postais. Uma das pessoas mais presentes na vida da cidade de Crato é o radialista, jornalista, memorialista e historiador Francisco Huberto Esmeraldo Cabral. Desde 1947, quando tinha dez anos idade, Cabral começou a participar dos acontecimentos da cidade natal, um dos enlevos da sua vida.
 Na sua trajetória profissional, Huberto Cabral exerceu inúmeros cargos, dentre eles o de Assessor de Imprensa da Prefeitura de Crato, Câmara de Vereadores e Assessor de Comunicação no início da Universidade Regional do Cariri. Ao longo da sua existência ele tem sido animador e organizador de inúmeras promoções de caráter cultural que se realizam em Crato desde o início da década 50 do século passado.
 Huberto Cabral sempre participou ativamente da organização da “ExpoCrato” o maior evento econômico-social do interior nordestino. São milhares as crônicas escritas e divulgadas por ele através dos meios de comunicação, as quais – se reunidas e publicadas – constituiriam o resgate das efemérides históricas, políticas e educacionais de Crato e do Cariri. Desde 1958 contribui com o Departamento de Jornalismo da Rádio Educadora do Cariri, hoje de forma voluntária e abnegada para difundir o Crato e o Cariri.
  Huberto Cabral é, merecidamente, mercê de seus dotes de espírito e prestimosidade uma biblioteca ambulante ou um professor sem cátedra da história do Sul do Ceará.  Atualmente, aos 81 anos de existência, contrariando uma tendência natural de que – com o avanço da idade ocorre um arrefecimento de ânimo, força ou disposição do ser humano ao trabalho – Huberto Cabral continua firme no seu “sacerdócio” cotidiano de prestar serviços à comunidade caririense. Serviço de boa qualidade, sem preocupação de colher louros, a não ser aqueles que venham beneficiar a todos incondicionalmente. Por essa história de vida, totalmente devotada à causa pública e ao progresso material e intelectual de nossa região, Huberto Cabral é merecedor de todo o nosso respeito e gratidão.

 Avança causa de beatificação de Benigna
 As ruas de Santana do Cariri foram tomadas, no último dia 24 de outubro de 2018, por uma multidão calculada em 30 mil pessoas, que reverenciou a memória da Serva de Deus Benigna Cardoso da Silva. A solenidade foi presidida pelo Bispo Diocesano de Crato, Dom Gilberto Pastana de Oliveira. Este, anunciou ao povo que a Comissão de Teólogos do Vaticano aprovou o processo de pedido de beatificação de Benigna Cardoso da Silva.
 Agora a próxima etapa é a avaliação dos Cardeais componentes da Congregação para a Causa dos Santos, cujo resultado será levado ao Papa. Este dará a palavra final para a beatificação de Benigna, filha de Santana da Cariri e primeira cearense com chance de galgar os altares da Igreja Católica.
  Benigna Cardoso da Silva nasceu em 15 de outubro de 1928, em  Santana do Cariri. Foi assassinada em 24 de outubro de 1941,  na mesma cidade,  ao defender-se do assédio sexual por parte de um jovem da mesma idade, que, enfurecido, golpeou-a com um facão. Desde então, a menina Benigna se  tornou alvo de devoção por parte da população caririense  que a considera uma “mártir da castidade”. 
 Em 2011, a Diocese do Crato deu início ao seu processo de beatificação. Em 2013, a causa foi aceita pela Congregação para a Causa dos Santos, e Benigna foi declarada Serva de Deus. Agora em 2018, o processo de beatificação de Benigna foi aprovada pela Congregação para a Causa dos Santos, do Vaticano.

 O mais antigo engraxate de Crato
 Seu nome completo é Francisco das Chagas Amorim Damasceno. Mas se procurarem este nome na Praça Siqueira Campos, centro de Crato ninguém saberá informar. Já “Chaguinha”, o engraxate, não só é muito conhecido, como é figura popular na Cidade de Frei Carlos, onde nasceu e exerce sua profissão há cerca de 70 anos. 
 Um dos grandes presidentes da República brasileira – o visionário e injustiçado Juscelino Kubitschek – também foi engraxate, na sua infância pobre em Diamantina (Minas Gerais) sua cidade natal. Já o “Chaguinha de Crato” tem, o orgulho de ter lustrado os sapatos do Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, quando este era ainda General, Comandante da 10ª Região Militar, com sede em Fortaleza,  e veio a Crato, pela primeira vez, em 1953. 
 Castello Branco foi, posteriormente, Presidente do Brasil, ou seja, foi Chefe de Estado e Chefe de Governo desta república, entre 1964 e 1967.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O lado pernambucano da Chapada do Araripe é uma extensão do Cariri 
  Ronaldo Correia de Brito (foto ao lado), viveu em Crato até os dezoito anos de idade. Daqui saiu para estudar em Recife, onde mora até hoje. Nos dias atuais, Ronaldo Correia de Brito é afamado romancista, contista, dramaturgo, documentarista, médico e psicanalista. Em 2009, ele recebeu o “Prêmio São Paulo de Literatura” e seu livro “Galileia” foi considerado o Melhor Livro do Ano.
 Quinzenalmente Ronaldo escreve e publica uma crônica, que é reproduzida em vários jornais da grande mídia brasileira. Tempos atrás ele escreveu uma, com o título “Os territórios afetivos”. A crônica versa sobre as cidades pernambucanas localizadas no entorno da Chapada do Araripe, consideradas “satélites” da conurbação Crajubar. Da crônica de Ronaldo transcrevemos os dois tópicos abaixo:
Os territórios afetivos – 1
                                                                   Araripina (PE)
 “As cidades do interior sertanejo são todas iguais. Há motos em excesso, o silêncio tornou-se mercadoria rara, os carros não param de circular, muita gente caminha de um lado para outro, ocupa ruas e praças como se nada tivesse o que fazer” (...) “Exu, Bodocó, Trindade, Ouricuri e Araripina, escolhidas para a jornada literária, mais parecem uma extensão do Cariri cearense. O sotaque, a culinária, os tipos físicos e as culturas se assemelham. Os moradores dali procuram Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, bem mais próximo do que o Recife, para atendimento médico e hospitalar, compra de mercadorias e o comércio do que produzem. Os estudantes universitários preferem as faculdades do Cariri a se deslocarem para a capital distante. Também buscam o ensino em Petrolina e cidades piauienses. Porém o Crajubar, nome que aglutina as iniciais das três cidades do Cariri, tornou-se naturalmente a capital da chapada”.
Os territórios afetivos –   2
                                                                             Ouricuri (PE)
 “É possível desenhar um mapa de cidades piauienses, cearenses e pernambucanas, formando uma região em que as fronteiras de estados foram abolidas. Um território com afinidades econômicas, históricas, geográficas, antropológicas e culturais, o parentesco do Araripe. Não existe desejo separatista, mas temos a impressão de que se trata de outro estado brasileiro, nascido da cumplicidade. Será que a aglutinação espontânea desenhou um novo mapa territorial?”

História: A antiga força da Igreja Católica no Cariri
                                        Catedral de Crato, no primeiro quartel do século passado

 A enorme influência que a Igreja Católica exercia sobre o povo do Cariri sofreu acentuada diminuição a partir do final dos anos 1950. Essa perda de prestigio foi agravada após a implementação, de forma açodada, de algumas medidas advindas do Concilio Ecumênico Vaticano II (1962–1965). Mesmo nos dias atuais, a mídia continua noticiando gravíssimos escândalos internos na Igreja Católica, aumentando, ainda mais, essa crise de influência. Entretanto, até segunda metade do século 20, no Cariri cearense, o poderio da Igreja Católica era forte e marcante.
  O médico-historiador Irineu Pinheiro relata no seu livro “Efemérides do Cariri” (páginas 224-225) o repúdio que os católicos cratenses manifestaram – em 1945 – a uma caravana, vinda de Fortaleza, para divulgar, no Cariri, os princípios sócio-políticos do Partido Comunista Brasileiro. O Brasil vivia, naquele ano, o fim da ditadura de Getúlio Vargas, que dominara – por 15 longos anos – a então “República dos Estados Unidos do Brasil” (era este o nome oficial da nossa pátria). A abertura democrática pós-ditadura Vargas possibilitava a fundação de novos partidos políticos, dentre eles o Partido Comunista Brasileiro, inspirado na ideologia marxista.
 Bastou o segundo Bispo de Crato, Dom Francisco de Assis Pires, se pronunciar contra a realização do comício dos comunistas, previsto para a noite de noite de 9 de setembro de 1945, na Praça Siqueira Campos, para cerca de cinco mil cratenses saírem às ruas, à última hora, dando “vivas à Igreja Católica e morras ao comunismo”. O povo conduzia quatro bandeiras (uma delas era a do Brasil) e pôs em fuga os comunistas presentes em Crato.

Nova tentativa frustrada
 Em 21 de novembro de 1945 os comunistas retornaram ao Cariri e realizaram um comício na Praça de Cristo Rei. Segundo Irineu Pinheiro: “Foram vaiados os oradores pelos assistentes”. Os militantes comunistas, ante a intensidade do protesto popular buscaram refúgio no Bar Cairu, localizado na Rua João Pessoa. Nesse interim, uma grande procissão de fiéis católicos saía da Sé Catedral conduzindo a imagem histórica de Nossa Senhora da Penha, vindo atrás dela o Bispo Diocesano.  Reza a tradição que a caravana dos comunistas fortalezenses só não foi agredida pela população porque Dom Francisco de Assis Pires entrou no bar (onde os comunistas tinham se refugiado) e garantiu a integridade física deles. O Bispo Diocesano apenas aconselhou-os a irem para o hotel e embarcarem no próximo trem com destino a Fortaleza. Foi o que eles fizeram.

Juazeiro do Norte, o chão dos místicos
  Muitas pessoas com fama de santidade viveram em Juazeiro do Norte. Uma dessas foi o Padre Francisco Pinkowski, sacerdote pertencente à Ordem Salesiana, nascido na Polônia em 1882. Ainda criança foi estudar em Turim, na Itália. Lá, teve a maior alegria da sua vida: conhecer pessoalmente São João Bosco.  Ainda adolescente, Francisco Pinkowski foi enviado para Montevidéu, no Uruguai, onde se ordenou sacerdote em 1920.
 De lá foi enviado para o Brasil, para Pernambuco, onde residiu de 1921 a 1939.  Transferido, em seguida, para Fortaleza, no Ceará, exerceu várias atividades pastorais entre os anos 1940-1943. De Fortaleza veio para Juazeiro do Norte, onde viveu os anos 1944-1945. Mandaram-no oura vez a Pernambuco, em 1946. Sua saudade de Juazeiro do Norte fê-lo retornar à Terra do Padre Cícero onde viveu seus últimos anos de vida. Ali faleceu, em 15 de abril de 1979, aos 96 anos de idade. Foi sepultado, no dia seguinte, no interior da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Ainda hoje sua sepultura é muito visitada. Fiéis dão testemunho de graças alcançadas pela intercessão daquele santo sacerdote.
  Sobre este sacerdote escreveu o escritor Mário Bem Filho: “Em Juazeiro do Norte, Padre Francisco Pinkowski, apesar da idade avançada, jamais se deixou vencer pelo cansaço. Levantava-se cedo e começava a rezar o terço e, após meditação, celebrava a Santa Missa. Posteriormente começava a atender às confissões, saindo, em seguida, sempre a pé, para prestar assistência aos enfermos pobres que habitavam a periferia de Juazeiro do Norte. Seu maior sonho era ver concluída a construção da igreja do Sagrado Coração de Jesus, o que conseguiu realizar.

Um fato extraordinário teria acontecido com o Pe. Francisco Pinkowski
 Conta-se, em Juazeiro do Norte, uma história de domínio público. Certa manhã, Pe. Francisco foi chamado para dar a extrema-unção (hoje chamam de Unção dos Enfermos) a uma moribunda que residia na Rua da Palha, então periferia daquela cidade. Saiu a pé, carregando a hóstia consagrada, estola, livro-devocionário e um recipiente com água benta.  Em lá chegando, Padre Francisco Pinkowski entrou numa pequenina palhoça, coberta de palha e chão de barro, destituída de qualquer móvel, onde pudesse colocar os objetos sagrados. Constrangido, por não querer colocar esses objetos no chão, eis que entra, na palhoça, um rapazinho de boa aparência, bem vestido e pede ao Padre Francisco para segurar os objetos, enquanto o sacerdote colocava a estola sobre os ombros. Após cumprir a tarefa o rapazinho se afastou do pequeno recinto.
 A sós com a moribunda, Padre Francisco ouviu-a em confissão, deu a comunhão e procedeu à Unção dos Enfermos. Ao sair, perguntou a algumas pessoas que estavam do lado de fora da choupana:
– Onde está aquele mocinho que segurou meus objetos? Gostaria de agradecer-lhe...
 Para sua surpresa, os moradores insistem em dizer que, na palhoça, não entrara ninguém. Padre Francisco retornou ao Colégio Salesiano um tanto intrigado com o fato. Chegando ao Colégio, entrou na antiga capela do educandário. Foi quando seus olhos se fixaram num altar e ele viu uma imagem de São Domingos Sávio. Emocionado, reconheceu naquele santo o rapazinho que o ajudara, momentos antes, no tugúrio da enferma, a quem dera assistência espiritual

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A cultura da cana de açúcar no Cariri
                                                                  Engenho típico do Cariri cearense

    Nos dias atuais, o Sul do Ceará, passa por um processo de transformação, em todos os sentidos da vida, o que levou muitas de suas práticas e atividades tradicionais ao desaparecimento. No setor da economia do Cariri, uma das atividades do passado, praticamente extinta, foi o cultivo de cana de açúcar, a qual perdurou desde o início do povoamento desta região – início do século 18 – até princípios da década 1960.
   Segundo a arquiteta e historiadora Maria Yacê Carleal Feijó de Sá (autora de um monografia de Mestrado “Os Homens que Faziam o Tupinambá Moer”, UFC, 2007), os brejos do Cariri, desde a época da distribuição das sesmarias, já passaram a ser tomados pela plantação da cana-de-açúcar, de forma que antes mesmo de 1725 já funcionavam as primeiras estruturas que fabricavam o melado e a rapadura na região. No ano de 1765, estima-se que já existiam 37 unidades fabricando mel e rapadura no Cariri. Segundo Yacê, em 1858 já existiam cerca de 300 engenhos de fabrico de rapadura no Cariri, e desses, 72 engenhos ficavam no pé de serra e no brejo do município de Barbalha.
  No Cariri, os engenhos passaram por três fases. Na primeira, no século XVIII, como a água nas nascentes eram abundantes, as moendas eram movidas pela força hídrica. A segunda fase foi a tração do boi que movia as moendas dos engenhos. Por fim, veio a fase dos engenhos de ferro. Os primeiros desse tipo foram trazidos, possivelmente, de Pernambuco.
   Mas essa atividade econômica, que gerou tanta riqueza, que fez surgir uma aristocracia ruralno Sul do Ceará, que fez o Cariri progredir, desapareceu. Hoje, em Barbalha, existem apenas cinco engenhos, que se mantêm com pequena atividade. Desses, dois fabricam somente rapadura e, os outros três, além do doce, fazem cachaça, batida e alfenim. Mas todos só trabalham por encomenda.
    Para conhecer mais sobre o assunto, existe um pequeno livro – “Engenhos de Rapadura do Cariri” – escrito pelo historiador J. de Figueiredo Filho, com uma segunda edição publicada em 2010, pelas Edições UFC, da Universidade Federal do Ceará.

Instituto Cultural do Cariri vai fundar o “Museu do Engenho de Rapadura”
 A atual direção do Instituto Cultural do Cariri-ICC está elaborando um projeto para criação do Museu do Engenho de Rapadura do Cariri. Excelente iniciativa para uma cidade onde o Poder Público Municipal fechou, há dez anos, os dois maiores museus públicos: o Museu de Artes Sinhá D’Amora e o Museu Histórico de Crato. Este último criado pelos fundadores do Instituto Cultural do Cariri.
 Explica o Presidente do ICC, o advogado Heitor Feitosa,  que a ideia de fundação do Museu do Engenho de Rapaduras do Cariri surgiu pela nostalgia da população caririense com o fim da exploração da cana de açúcar, que era o carro-chefe da economia do Sul do Ceará. Diz Heitor Feitosa que esse fim foi danoso tanto à história, como à memória do Cariri.  

65 anos da revista “A Província”
 Fundada em 1953, a revista “A Província” é a mais antiga publicação cultural da cidade de Crato. Bom lembrar que a revista “Itaytera”, órgão oficial do Instituto Cultural do Cariri, só teve seu primeiro número lançado em 1955.
 No seu próximo número, “A Província” prestará uma homenagem ao escritor F.S. Nascimento, um dos seus fundadores, recentemente falecido. Os outros dois fundadores da revista, também falecidos, foram   Florisval Matos e Humberto Cordeiro. 
 “A Província”, nos dias atuais, é fruto da teimosia e perseverança do Prof. Jurandy Temóteo, diretor e redator da revista. Jurandy vem publicando “A Província” todos os anos. Existem anos que ele chega a publicar dois números da revista, cujo lema é: "O universal pelo regional". Coerente, pois, com esse objetivo embutido, verifica-se que não precisa ser cratense para ser alcançado pelos conteúdos do periódico. Os assuntos tratados, na sua maioria, extrapolam o regional e têm essa conotação universal.

Jornalistas do Cariri: José Joaquim Teles Marrocos
    Fátima Menezes – em “Síntese Biográfica”, página 6 – escreveu que José Joaquim Teles Marrocos nasceu em Crato, no dia 26 de novembro de 1842, filho do Padre João Marrocos Teles. A respeito de sua mãe, pouco se sabe. Apenas que “era filha de escravos e residia nas proximidades de Crato”. José Marrocos era primo e amigo do Padre Cícero Romão Batista.
  Raimundo de Oliveira Borges, – no livro “O Crato Intelectual”, páginas 19/20, – escreveu que José Marrocos foi jornalista, latinista, abolicionista e uma das principais campanhas pró-abolição da escravatura na Província do Ceará. Escreveu em vários jornais do Rio de Janeiro e de Fortaleza, defendendo com destemor a extinção da escravatura. Na verdade, o professor José Joaquim Teles Marrocos foi muito mais. Foi educador e fundador de várias escolas na atual conurbação Crajubar; católico fervoroso e formador de várias gerações de caririenses. 
  Em 1908 deixou de residir em Crato e se fixou em Juazeiro do Norte. Passou a fazer parte desta última cidade. Não somente por ser um defensor ardoroso do que se convencionou chamar “O milagre da hóstia”, fenômeno verificado, diversas vezes, quando a Beata Maria de Araújo recebia a Santa Comunhão, mas por outras atividades no setor da educação e como jornalista. Foi redator do jornal “O Rebate”, publicado em Juazeiro do Norte, que defendia a emancipação da então “Vila do Joaseiro”, à época pertencente ao município de Crato.
 Ao falecer, em 14 de agosto de 1910, estava escrevendo um livro, “A Questão Religiosa de Juazeiro”, obra que nunca foi publicada. Está sepultado no Cemitério do Socorro, ao lado do túmulo do Beato José Lourenço. em Juazeiro do Norte.
                                 Foto do velório do Prof. José Marrocos em 15 de agosto de 1910.

História: O primeiro vigário de Juazeiro do Norte
  Quando o primeiro Bispo de Crato, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, criou a Paróquia de Juazeiro do Norte – em janeiro de 1917 – designou para administrá-la um dos mais cultos e virtuosos sacerdotes da nova Diocese:  o Padre Pedro Esmeraldo da Silva. Este era considerado o maior orador sacro da Diocese de Crato.
  Nascido em Crato, em 29 de janeiro de 1876, Pedro Esmeraldo de Crato ingressou, ainda criança, no Seminário São José de Crato. Lá, fez o curso primário. Adolescente, seguiu para o Seminário de Olinda, onde fez os estudos preparatórios para o sacerdócio. Transferiu-se para o Seminário de Fortaleza, onde fez o curso de Teologia. Não tendo idade canônica para ser ordenado padre, continuou no
Seminário de Fortaleza como professor.
   Voltando a sua cidade natal foi um dos sacerdotes que reabriram o Colégio São José, o qual depois teria o nome mudado para Ginásio do Crato e, posteriormente, Colégio Diocesano do Crato. Em 1917, Mons. Esmeraldo foi nomeado o primeiro Vigário da Paróquia de Nossa Senhora das Dores de Juazeiro do Norte. Saiu dali para exercer o cargo de Cura da Catedral de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Anos depois retornou ao Ceará e pediu ao Bispo de Crato que o nomeasse, novamente, como Vigário de Juazeiro do Norte. Morreu nessa função, no dia 1º de outubro de 1934, de um enfarto fulminante. O povo de Juazeiro levou, a pé, o corpo do seu vigário para ser sepultado no cemitério de Crato.

Faleceu o sacerdote mais velho da Diocese de Crato
                                Monsenhor Aluízio celebrou a missa durante 80 anos de sua existência

    Faleceu no último dia 5 de outubro, em Fortaleza, o decano do clero cratense. O título cabia por direito ao Monsenhor Aluízio Rocha Barreto, o qual, nesta quarta-feira, de outubro de 2018, teria completado 104 anos de idade. Ele já residia há várias décadas na capital cearense.
   Monsenhor Aluízio Rocha Barreto nasceu em Missão Velha, em 10 de outubro de 1914. Ele veio ao mundo dez dias antes da criação da Diocese de Crato, fato ocorrido em 20 de outubro de 1914, por ato do Papa Bento XV.  Por isso, Monsenhor Aluízio também festejou seu centenário de nascimento, no mesmo ano e mês que a Diocese de Crato comemorava o centenário de sua criação.
  Em fevereiro de 1934, o seminarista Aluízio Rocha Barreto já estava estudando no Seminário Provincial de Fortaleza, aonde foi ordenado sacerdote no dia 5 de dezembro de 1937.  Foi designado, dias depois, como vigário cooperador de Missão Velha, sua cidade natal. Em 1939 foi nomeado vigário do município de Farias Brito. Em 1940 e 1941 vamos encontrá-lo como professor do Colégio Diocesano de Crato.  Depois dessas atividades, Monsenhor Aluízio Rocha Barreto deixou a diocese de Crato indo exercer pastoreio na Diocese de Caicó, no Estado do Rio Grande do Norte. A partir de 1958 fixou residência em Fortaleza, aonde residiu durante 60 anos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

65 anos do Instituto Cultural do Cariri–ICC
  Iniciadas em 06 de setembro de 2018, com o lançamento do livro-póstumo de Manoel Patrício de Aquino (“Alguma Coisa”), as comemorações alusivas aos 65 anos de fundação do Instituto Cultural do Cariri–ICC, prosseguiram no dia 28, do mesmo mês, com o lançamento do livro “Dormindo à Borda do Abismo”, de José Flávio Vieira.
   As festividades prosseguirão nesta 5ª feira, 4 de outubro, com uma sessão comemorativa pelos 65 anos de fundação do ICC. Será às 19:00h. na sede da instituição com hasteamento de bandeiras, replantio de um mandacaru (árvore símbolo do ICC) e lançamento do número 47 da revista Itaytera, alusiva a 2018.
    Na mesma ocasião será oficialmente lançado o site do ICC na Internet. Este site disponibilizará, para consultas, a coleção digitalizada completa da revista “Itaytera”. Nessa sessão serão abertas as comemorações pelo centenário de nascimento dos ex-sócios Alderico de Paulo Damasceno, Pe. Antônio Vieira e José do Vale Arraes Feitosa. Um coquetel será servido aos presentes.
         
No próximo dia 18 de outubro de 2018, será celebrada uma missa comemorativa aos 65 anos de fundação do Instituto Cultural do Cariri, na Catedral de Nossa Senhora da Penha. No dia 09 de novembro vindouro haverá sessão de homenagem aos fundadores e ex-presidentes do Instituto Cultural do Cariri. Será orador oficial o repórter da Rede Globo, e sócio do ICC, jornalista Francisco José de Brito. Ele é titular da Cadeira 17, que tem como patrono o jornalista João Brígido.
    Finalmente, nas datas 20 e 21 de dezembro de 2018, será realizada a 1ª Festa do Livro do Cariri–FLICA, tendo como local a Praça Siqueira Campos. Naquelas datas haverá lançamentos e venda de livros, apresentações musicais, folclóricas e danças, exposição de arte, desfile de modas e mesas redondas, dentre outras atrações. 

A presença da Igreja Católica na formação do Cariri
 Capela  de Santo Inácio de Loyola, localizada no Sítio Caldeirão, no município de Crato. Este pequeno templo foi construído pelo Beato José Lourenço
 
  A Igreja Católica contribuiu de forma decisiva para a formação da sociedade caririense. As cidades do sul-cearense, em sua maioria, surgiram ao redor de um templo católico. Geralmente uma capelinha construída numa pequena comunidade. Os santos faziam parte das nossas famílias nos albores do Cariry Novo. E estavam presentes na rotina do povo, tanto da zona rural, como das pequenas vilas, a partir dos anos de 1700. As relações entre Igreja Católica e as instituições governamentais foram estreitas no Sul do Ceará. 
   Tanto no tempo do Brasil-Colônia, quanto no Brasil-Império. Essa relação garantia a disciplina social da nossa sociedade. Ademais, a Igreja, por ser a religião oficial do Brasil, também executava no Cariri as tarefas administrativas que hoje são atribuições do Estado. A exemplo do registro de nascimentos, mortes e casamentos. Somente a partir do golpe militar de 15 de novembro de 1889, começou a declinar a influência do catolicismo na vida dos caririenses.

A religiosidade do povo caririense
                                        Igreja-Matriz de Senhora Santana, na cidade de Santana do Cariri

   O médico-historiador Irineu Pinheiro sintetizou, com rara felicidade, a principal característica do povo caririense: a religiosidade. No livro “O Cariri”, publicado em 1950, escreveu ele que essa característica foi preponderante na formação do caririense. A conferir: 
   “Foi sempre muito religioso, inda hoje o é, o povo do Cariri. Vive, como todo cearense, a apelar para a misericórdia divina, no decurso de sua existência entremeada de épocas de fartura e felicidades e misérias e morte. Cite-se, aqui, um exemplo da fé inabalável da mulher sertaneja. Em quaisquer perigos, em momentos, por exemplo, de grandes chuvas acompanhadas de relâmpagos e trovões de estalo, costuma ela ajoelhar-se diante de seus humilíssimos registros de santos e rezar o rosário apressado da Virgem da Conceição”. (...) “Em toda a zona do Cariri, também nos sertões circunvizinhos, extremou-se a religiosidade popular”

A força da Igreja Católica no Cariri
   A bem dizer, a Igreja Católica foi a bússola usada para guiar as populações caririenses desde o povoamento do Sul do Ceará.  Missão Velha e Crato – as duas mais antigas povoações do Cariri – nasceram como frutos do trabalho evangelizador dos frades franciscanos capuchinhos, que aqui atuaram a partir do início do século 18, ou seja na primeira década de 1700. Passados 318 anos, a conduta dos caririenses – sua cultura, mentalidade, usos e costumes, enfim, muito do que diz respeito à prática religiosa do nosso povo – deve-se a sua relação com esses missionários franciscanos que habitaram entre nós.
    Ainda hoje nossas cidades são tituladas, e até conhecidas, pela herança da evangelização católica. A “Terra do Padre Cícero ou “A Terra da Mãe de Deus” (Juazeiro do Norte); “A Terra de Santo Antônio” (Barbalha); “A Terra de São José” (Missão Velha) ou “A Cidade de Frei Carlos” (Crato), são exemplos mais conhecidos. Mas é comum, à entrada das cidades caririenses, a existência de arcos ou monumentos dedicados aos seus padroeiros. Falar em Padroeiros, as suas festas representam, ainda hoje, grandes manifestações coletivas de fé e interação social. Algumas têm registros no nosso patrimônio histórico.

Os santos padroeiros dos municípios caririenses
 Procissão a Nossa Senhora da Penha -- Imperatriz e Padroeira da cidade de Crato -- no último dia 1º de setembro

  Festas como a de Nossa Senhora das Dores (Rainha e Padroeira de Juazeiro do Norte) e a de Santo Antônio (Padroeiro de Barbalha) obtêm repercussão nacional e são divulgadas pela grande mídia televisiva do Brasil. Mas não só estas. Repercussões menores, mas também significativas, atraem multidões para os festejos de Nossa Senhora da Penha (a “Imperatriz de Crato”, como reza a tradição mais do que bicentenária), de São Raimundo Nonato (Padroeiro de Várzea Alegre), de São José (Padroeiro de Missão Velha e Potengi). Outras festas de Padroeiros estão inseridas no calendário turístico do Cariri: Santa Teresa D’Ávila (Altaneira), Santo Antônio (Antonina do Norte, Araripe, Barro e Jardim), Nossa Senhora das Dores (Assaré e Jamacaru), São Pedro (/Caririaçu), Senhora Santana (Jati e Santana do Cariri), Nossa Senhora da Conceição (Mauriti e Porteiras), Nossa Senhora dos Milagres (Milagres), São Sebastião (Nova Olinda). Todas essas cidades realizam festejos significativos paras seus Patronos e Patronas.

A capela de São Sebastião dos Currais
   Quem percorre a estrada Barbalha-Arajara-Crato, em direção à última cidade, é surpreendido — cerca de cinco quilômetros, antes de chegar ao destino — quando avista, no lado direito, uma singela e respeitável capelinha, típica dos templos rurais do século 19. Trata-se da Capela de São Sebastião, do sítio Currais, erguida para atestar, às gerações futuras, uma grande graça concedida por Deus, à população daquela localidade, na segunda metade do século 19.
    Damos a palavra ao historiador Irineu Pinheiro que fez menção deste fato no seu livro “O Cariri”, página 245: “Em 1862 prometeu o major Felipe Teles Mendonça erigir uma capela em seu sítio Currais, a uma légua do Crato, dedicada a São Sebastião, se não morresse de cólera-morbo nenhum dos membros de sua família ou de seus moradores. Naquela época a epidemia do mal asiático abateu milhares de pessoas em todo o Ceará. Nada sofreram o major Felipe e os de sua casa e sítio. Em 12 de outubro de 1863, para cumprir o seu voto, pediu ao Bispo Dom Luiz Antônio dos Santos licença para edificar a igrejinha, licença que lhe foi dada no dia 13 do mesmo mês e ano, depois de informação favorável do vigário de Crato, Pe. Joaquim Aires do Nascimento. Mas só em 1888, após ter o segundo Bispo do Ceará, Dom Joaquim José Vieira, confirmado a graça concedida por D. Luiz, foi erguida a capelinha e benzida pelo vigário do Crato, Antônio Fernandes da Silva”. 

História: Sesquicentenário da Casa de Caridade de Crato
                                       Como era a Casa de Caridade de Crato até a década 1950

   No próximo ano – mais precisamente em 07 de março de 2019 – será festejado os 150 anos de inauguração da Casa de Caridade de Crato. O médico-historiador José Flávio Vieira, no seu mais recente livro (“Dormindo à Borda do Caminho – A Medicina no Cariri Cearense–1800-1900”, na página 146) fez uma retrospectiva daquela instituição, fruto do trabalho apostólico do Servo de Deus Padre José Antônio de Maria Ibiapina.
    Dentre outras informações, José Flávio publicou: “ (A Casa de Caridade de Crato) Teria uma longa e profícua atividade, permanecendo em funcionamento por quase cem anos. Na Casa de Caridade de Crato, além das funções habituais da instituição, montou-se um Gabinete de Leitura (talvez a primeira biblioteca da cidade) e que em notícia de 20 de março de 1870, na “Voz da Religião do Cariry”, possuía 45 volumes”. Número considerável para aquela recuada época.
    As instalações da Casa de Caridade de Crato também abrigaram, em caráter temporário, (a partir de 23 de dezembro de 1936), o recém-criado Hospital São Francisco de Assis de Crato, iniciativa do 2º Bispo da nossa diocese, Dom Francisco de Assis Pires.
    Apesar de o prédio ter sido descaracterizado (por reformas feitas sem preocupação de preservar o aspecto original do prédio), a Casa de Caridade de Crato se constitui num edifício que deveria ser tombado pelo Patrimônio Histórico do Ceará. Aquele imóvel perdeu, é verdade, muito da sua bonita fachada. Na década 50 do século passado foram destruídas, também, suas centenárias árvores fruteiras e outras plantas ornamentais que ficavam onde hoje estão localizados os prédios do Colégio Madre Ana Couto e da Rádio Educadora do Cariri. Entretanto, aquele conjunto arquitetônico ainda é um resquício do que foi, tempos atrás, a beleza do estilo que dominou o patrimônio imobiliário da Cidade de Frei Carlos.

Escritores do Cariri: Irineu Pinheiro
  Nascido em 6 de janeiro de 1881, em Crato, Irineu Nogueira Pinheiro é considerado um dos mais respeitados e produtivos intelectuais do Cariri. Estudou em Crato (Seminário São José), Fortaleza, Recife e no Rio de Janeiro, cidade onde concluiu o curso de medicina, na turma de 1910.
  Estudioso da História, foi “o maior pesquisador dos “fastos” regionais”, na feliz expressão do Dr. Raimundo de Oliveira Borges. Deixou vários livros publicados, dentre eles: “Um Caso de Dexiocardia”, “O Juazeiro do Padre Cícero e a Revolução de 1914”, “José Pereira Filgueiras”, “ Joaquim Pinto Madeira”, “Cidade do Crato”, “Morte do Capitão J. da Penha”, “O Cariri” e “Efemérides do Cariri”. Foi um dos fundadores e primeiro presidente do Instituto Cultural do Cariri.
  Foi Inspetor Federal do Colégio Diocesano; professor do Seminário São José; Sócio-Correspondente da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará.  Colaborou com os jornais de Fortaleza e com os periódicos de Crato (“A Região”, “Correio do Cariry” e “A Ação”). Teve intensa participação nos movimentos que trouxeram progresso para sua cidade natal, sendo fundador e primeiro presidente do Rotary Clube de Crato e Presidente do Banco do Cariry, a primeira instituição de crédito do interior cearense, fundada por Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva.
   Faleceu, em 21 de maio de 1954, na cidade de Crato, vítima de colapso cardíaco, enquanto – com a caneta à mão –  escrevia a um amigo de Fortaleza sobre o último livro que produziu: “Efemérides do Cariri”.

LEIA DE NOVO