quarta-feira, 26 de setembro de 2018

As tentativas para separar a região do Cariri do Ceará
     As alegativas (para a criação da “Província” e/ou “Estado” do Cariri) sempre foram mais ou menos as mesmas: a de que a região sul-cearense possuía progresso econômico e civilizatório, mas não recebia o apoio necessário vindo do governo sediado em Fortaleza, o qual relegava ao abandono o Cariri. 
     A primeira tentativa de independência do Cariri foi em 1828. A Câmara de Vereadores do Crato encaminhou representação ao Governo Imperial mostrando a oportunidade de criação da nova Província do Cariri Novo. A ideia voltou à tona, em 14 de agosto de 1839, quando o senador José Martiniano de Alencar, do Partido Liberal, apresentou, no Senado do Império do Brasil, um projeto de lei, cujo artigo 1º dizia textualmente: "Fica criada uma nova Província que se denominará Província do Cariri Novo, cuja capital será a Vila do Crato".
     Anos depois, através do jornal "Diário do Rio de Janeiro", voltava o senador Martiniano de Alencar a defender sua ideia de criação da Província do Cariri. Em 1846 a proposta foi reapresentada pela Assembleia Legislativa da Província do Ceará e retomada no decênio de 1850 pelo jornal “O Araripe”, editado em Crato. No século XX a reivindicação ganhou fôlego nos anos de 1905, pelas páginas do jornal “Sul do Ceará”. A última tentativa foi em 1957, quando se criou um Comitê Central Pró Estado do Cariri. Todas essas tentativas ficaram só no sonho. Hoje é impraticável se pensar em iniciativas separatistas como as mencionadas acima.

Como era o Cariri nos tempos do Brasil-Colônia?
       Ainda hoje, muitas pessoas  -- que se julga bem informadas --, não sabem distinguir a diferença entre os tempos do “Brasil-Colonial” (quando pertencíamos a Portugal) para os tempos do “Brasil-Império” (quando o Brasil se tornou uma nação independente com dimensão continental). É comum, quando se fala da monarquia brasileira, até mesmo professores (que têm obrigação de distinguir essas duas fases) afirmarem: “Na monarquia, os portugueses levavam nossas riquezas para a metrópole”. Ora, a transferência dos produtos brasileiros para Portugal ocorreu somente na época do “Brasil-Colônia” (e mesmo assim somente até a chegada da Família Real, em 1808). Essas transferências não ocorreram no “Brasil-Imperial”, país soberano e respeitado no concerto das nações a partir de 1822.
       Como era o Cariri no “Brasil-Colônia”? Distante mais de 600 km do litoral, carente de comunicação com os centros mais adiantados do Brasil, no Cariri cearense foi plasmada uma cultura própria, herança portuguesa, sob forte influência da Igreja Católica. Em algumas vilas e localidades caririenses, as companhias de penitentes se flagelavam, à noite, em frente das igrejas e dos cemitérios. O centro gravitacional das populações daqueles remotos tempos girava em torno da aristocracia rural, semelhante ao um feudo medieval!
       O proprietário rural atuava quase sempre como um poder moderador nos conflitos naturais da convivência humana. E a relação “patrão-empregados” era feita na base do compadrio. O proprietário rural era visto mais como um amigo (a quem se podia recorrer nas dificuldades) sendo impensável, naquele tempo, a versão – ainda hoje pregada nas universidades públicas – de “classe dominante”. 

O Cariri foi uma herança da mentalidade medieval
Crato em 1859, aquarela de José dos Reis Carvalho

     A região do Cariri foi, no início do seu povoamento, um resquício da civilização medieval, lembrando a que existiu na Europa, guardadas, é claro, as diferenças das realidades entre o velho e o novo mundo. Quando a decadência dos princípios basilares da Idade Média teve início no velho continente europeu, por volta do século XV, este processo de descristianização não foi implantado na Europa com rapidez. Nem atingiu todas as nações europeias com a mesma intensidade. Fácil compreender por que isso ocorreu.  Naquele tempo, não existiam os meios de comunicação, que temos hoje. As notícias e os acontecimentos levavam tempo para chegar aos países periféricos da Europa, e às pequenas vilas e povoados destes.
       Portugal, o mais ocidental dos países europeus, situado às margens do Oceano Atlântico, foi o último a sofrer as consequências da decadência daquele apogeu que caracterizou o sistema econômico, político e social, conhecido por “feudalismo”. Em Portugal, as consequências da  debacle desse sistema (que começou a se estruturar na Europa, ao final do Império Romano do Ocidente – século V – e atingiu seu apogeu no século X, só desaparecendo praticamente no final do século XV) chegaram às terras lusitanas com relativo atraso.

Mentalidade transferida para o Brasil nos albores do povoamento
      Ora, no início do século XVI, quando os portugueses aportavam no Brasil, ainda traziam para este Novo Mundo, boa parte da mentalidade medieval, no que diz respeito aos princípios de uma sociedade orgânica, isenta das “novidades” que a Idade Moderna já introduzira, por exemplo, na França, na Alemanha e outros países mais influentes do continente europeu.
        Chegando ao Nordeste brasileiro, a mentalidade da sociedade católica, aqui plasmada pelas boas famílias portuguesas que para cá se transportaram – os chamados “fidalgos” – conservou muitos princípios da mentalidade medieval. E isso aconteceu devido, principalmente, à grande distância e à falta de comunicação entre esta parte do Brasil e a já revolucionária Europa.

Mentalidade que chegou ao Brasil-Imperial  
Verdadeiro rosto do Imperador Dom Pedro I,
revelado graças à reconstituição facial feita
recentemente, sob os auspícios do Prof. José Luís Lira
- Crédito: Cícero Moraes
   No século 19, a maior parte dos trabalhadores dos engenhos caririenses era composta de homens livres, os chamados “agregados da família”.  E mesmo os escravos negros (pouco numerosos no Cariri), consoante a tradição, não sofriam – salvas as exceções – a opressão e a impiedade, que levavam seus irmãos de cor a gemer nos cativeiros de outras províncias brasileiras, especialmente as exportadoras de produtos agrícolas (São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, dentre outras). Talvez isso ocorresse no Cariri, porque não havia nesta região uma elite econômica ávida por lucros, voltada para a exportação da sua produção, como a existente nas províncias acima citadas. O escravo no Cariri, com raras exceções, era quase gente da família. Esses negros compartilhavam dentro da sua humildade e sujeição os acontecimentos alegres e tristes dos seus senhores.


Crato vai comemorar o centenário do Prof. José do Vale
    José do Vale Arraes Feitosa nasceu na fazenda Canabrava, em Aiuaba, sertão dos Inhamuns, em 11 de abril de 1919. Adolescente veio estudar no Seminário São José de Crato, e desta cidade nunca mais saiu.
    Vocacionado para o magistério foi professor em Crato durante 42 anos. Foi vice-diretor do Colégio Diocesano de Crato de 1947 a 1969; professor e co-fundador do Colégio Estadual Wilson Gonçalves, do Colégio Agrícola Federal e do Ginásio Municipal Pedro Felício, todos da cidade de Crato. Em 1968, formou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia do Crato, habilitando-se a ministrar as disciplinas: Língua Portuguesa, Literatura Brasileira, Francês e Literatura da Língua Francesa. Especializou-se em Literatura Brasileira, Literatura Portuguesa e Língua Nacional.
    Casou, muito jovem, com Maria Gisélia Pinheiro, com quem teve seis filhos. Em 1965 ficou viúvo. Em 1968 contraiu novo matrimônio com a professora Maria do Carmo Feitosa, sua parente. Desta união nasceram dois filhos. Era fluente orador. Foi um dos fundadores do Instituto Genealógico do Cariri. Recebeu o título de “Cidadão Cratense” e era sócio do Instituto Cultural do Cariri. Faleceu em 19 de outubro de 1997.
     Em 2019, no dia 11 de abril, a comunidade cratense vai comemorar o centenário de nascimento de um homem de bem, na verdadeira acepção da palavra. Um grande mestre, humano, afável, uma pessoa, simples, culta e de bom coração.

História: Um herói chamado Tristão
Bandeira da Confederação do Equador de 1824
     Muita gente ainda confunde a “Revolução Pernambucana de 1817” com a “Confederação do Equador”. Foram dois movimentos revolucionários distintos. Em 1824, eclodiu nova revolução republicana em Pernambuco denominada "Confederação do Equador". Este movimento uniu algumas lideranças das províncias de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, descontentes com a Constituição outorgada pelo primeiro imperador brasileiro, Dom Pedro I. O movimento repercutiu intensamente no Crato. Tristão Gonçalves de Alencar Araripe aderiu, com todo entusiasmo e idealismo, à Confederação do Equador. Em 26 de agosto daquele ano, foi ele aclamado pelos rebeldes republicanos como Presidente do Ceará. Entretanto a reação do Governo Imperial foi implacável. As instruções para debelar o movimento eram assim sintetizadas: "(...) não admitir concessão ou capitulação, pois a rebeldes não se deve dar quartel". Debelado o movimento restou a Tristão Araripe duas alternativas: exilar-se no exterior ou morrer lutando. Escolheu a última opção.
      Nas suas pelejas, Tristão colecionou vários inimigos. Dentre eles um rancoroso proprietário rural, José Leão da Cunha Pereira. Este utilizou um seu capanga, Venceslau Alves de Almeida, para pôr fim à vida do herói da Confederação do Equador no Ceará. Tristão Araripe faleceu, em 31 de outubro de 1825, combatendo o grupo armado de José Leão, na localidade de Santa Rosa, hoje inundada pelas águas do Açude Castanhão. Morreu como queria: pelejando, graças a Deus!



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

    A força eleitoral do Cariri 
      Nos dias atuais, compõe a região do Cariri 29 municípios. Contam eles com mais de 711 mil eleitores aptos a votar nestas eleições de 2018, a se realizarem em 7 de outubro próximo. Desses eleitores, 295.301 (mais de 41%), residem na conurbação Crajubar (Crato, Juazeiro e Barbalha. Só Juazeiro do Norte tem mais de 160 mil eleitores). E imaginar que, com toda essa força – devido as esdrúxulas leis eleitorais em vigor –  o Cariri não tem um único deputado federal nos dias de hoje. 
    Se tivéssemos voto distrital o Cariri formaria, com certeza, um distrito eleitoral, como foi na época do Brasil Império. Nada justifica que uma região tão importante e tão povoada seja desprovida de um deputado que represente mais de 1 milhão de habitantes.

O Cariri no tempo da monarquia
    Um assunto puxa outro. Pouca gente se dá conta disso. Durante os 518 anos de sua história, o Brasil (do descobrimento em 1500, aos dias atuais), viveu 389 anos da sua existência sob a forma de governo monárquica (entre 1500 a 1889). Ou seja, durante 75% da sua existência o Brasil nunca foi a república, que é hoje. Tanto tempo de monarquia deixou marcas que não se apagam facilmente. Isso nos remete a uma pergunta pertinente: Como era o Cariri durante os quase 200 anos (de 1700 a 1889), quando nossa pátria viveu sob o regime da monarquia?

Cariri real, Cariri verdadeiro
      Foi significante a presença do Cariri na época da monarquia. Basta lembrar que, em 1847, o engenheiro cratense Marcos de Macedo, deputado pela Província do Ceará, apresentou ao Imperador Dom Pedro II a ideia de transpor as águas do Rio São Francisco para o Rio Jaguaribe, a fim de amenizar os problemas gerados pela seca nordestina. Naquele tempo a ideia não foi concretizada porque a engenharia não tinha condições de realizar uma obra daquele porte. Basta dizer que a dinamite sequer tinha sido inventada.
      À época da monarquia, a sociedade caririense, diferente dos dias atuais, cultivava os valores morais e éticos, como o respeito à família, à propriedade privada e à Igreja Católica.  Dom Pedro II criou, em 1859,  uma Comissão Científica de Exploração (que os cariocas apelidaram de “Comissão das Borboletas”), composta por renomados especialistas,  destinada à investigação  científica, que realizou pesquisas  nas áreas de botânica, geologia, mineralogia, zoologia, astronomia, geografia e etnografia, no Ceará e na região do Cariri.
         Renato Braga assim escreveu sobre a Comissão científica: “Os viajantes foram bem acolhidos no Crato e demais localidades do Cariri. A todos (cratenses) causou estranheza, para não dizer espanto, a simplicidade de maneiras dos “doutores” a contrastar com a arrogância dos donos de engenho e autoridades (de Crato).

A mentalidade dos súditos caririenses
       O Prof. José Denizard Macedo de Alcântara (foto ao lado), erudito e douto cratense, dá o arremate sobre a mentalidade monarquista que imperava no Cariri. Escreveu ele (na apresentação do livro “Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro”, de Joaquim Dias da Rocha Filho):
       “Um bom entendimento dos fatos exige que se considere a realidade histórica, sem paixões nem preconceitos. A sociedade brasileira (e consequentemente a sociedade caririense) plasmou-se à sombra da monarquia, com todo o seu cortejo de princípios, hábitos, usos e costumes, não sendo fácil remover das populações esta herança cultural, tão profundamente enraizada no tempo; daí o apego (do povo) aos Soberanos, a aversão às manobras revolucionárias que violentavam suas tradições éticas e políticas”
       “Ora, dentre os dados da evolução histórica brasileira há que se ter em conta o seguinte: O centro de gravidade desta sociedade (aqui incluída a sociedade caririense), eminentemente rural, era sua aristocracia territorial, única força social de peso na estrutura nacional, repartida em clãs familiares, e profundamente adita ao Rei, de quem recebia posições públicas e milicianas, além de outras benesses, sentimento este que mais se avolumara com a transmigração da Família Real, em 1808 (de Portugal para o Brasil), pelo contato mais imediato com a Coroa, bem como pelos benefícios prestados ao Brasil, no Governo do Príncipe Regente Dom João VI”.

Como surgiu o Museu de Paleontologia
   O Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri está situado na cidade de Santana do Cariri e funciona como núcleo de pesquisa e extensão daquela universidade.
    Para tanto, dispõe de centro de pesquisa com laboratório, biblioteca e videoteca. Segundo seu criador – o Prof. Plácido Cidade Nuvens – a ideia de viabilizar esse museu nasceu no âmbito da programação das festividades do centenário do município de Santana do Cariri, em 1985.
    Exercendo o cargo de Prefeito, Plácido Cidade Nuvens enviou à Câmara Municipal mensagem com projeto de lei, a qual, depois de aprovada virou a Lei nº 197/85. Em 1991, o museu foi entregue à Universidade Regional do Cariri que, desde então, o administra e é responsável pela evolução e ampliação de suas instalações. O Museu de Paleontologia de Santana do Cariri – além de atração turística – é conhecido hoje em todo o Brasil.

Lendas e Mitos do Cariri 
Fundação Casa Grande de Nova Olinda

    Existe na cidade de Nova Olinda uma ONG denominada Fundação Casa Grande–Memorial Homem-Cariri. Criada em 1992, a partir da restauração da Casa Grande da Fazenda Tapera, esta construída em 1717, no lugar da aldeia dos índios Cariús-Cariris, onde hoje se ergue a cidade de Nova Olinda. 
    A Fundação Casa Grande faz um trabalho de preservação das lendas e mitos que contam a história do Homem-Cariri. Tornou-se, assim, uma escola de gestão cultural que tem como missão educar crianças e jovens através dos programas de Memória, Comunicação, Artes e Turismo. Os mitos, segundo Alemberg Quindins, fundador e presidente da Fundação Casa Grande são narrativas que possuem componente simbólico. Persiste no imaginário das camadas mais simples da população caririense, como acontecia com os povos da antiguidade.

Uma lenda que sobrevive: A Pedra da Batateira
 A nascente da Pedra da Batateira

    Na cidade de Crato, até décadas atrás, a população simples divulgava uma lenda: a de que os índios Cariris, aprisionados e escorraçados pelo povoador branco, haviam “encantado” (tapado) com uma gigantesca pedra, a grande nascente existente no sopé da Chapada do Araripe. Essa “Pedra da Batateira” (assim era chamada) continuou a barrar os milhões de litros de água daquela nascente, represando-as no subsolo. Mas um dia essa pedra não resistiria a força das águas represadas, cederia e inundaria o Crato inteiro e parte do vale do Cariri. Essa lenda era um terror para as crianças no início do século passado. Interessante que esse mito ainda persiste (com menor intensidade) mas, algumas pessoas residentes nos sítios ainda se recusam a morar na cidade de Crato, temendo a vingança da Pedra da Batateira...

Um homem importante para o progresso do Cariri: Dom Quintino
     Embora, nascido no sertão central do Ceará, o jovem Pe. Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva chegou ao Cariri tão logo foi ordenado sacerdote, em 19 de junho de 1887. E daqui nunca mais saiu. Inicialmente se fixou no distrito de Jamacaru (município de Missão Velha). Em 1889 foi nomeado Vigário de Crato. Nesta cidade permaneceu durante 40 anos, até sua morte em 29 de dezembro de 1929.
     Em 10 de março de 1915 foi nomeado primeiro bispo da nova Diocese de Crato, tomando posse em 1º de janeiro de 1916. Deu prioridade, no seu episcopado às causas espirituais. Foi, no entanto, o homem das grandes realizações materiais que modificaram o cenário social e econômico do Cariri.
     Fundou, em 1822, o Seminário Episcopal de Crato, tornando-se o pioneiro do ensino superior no interior do Ceará. Criou, em Crato, os Colégio Diocesano e o Santa Teresa de Jesus. Fundou, em 1921, a primeira instituição de crédito do Sul do Ceará, o Banco do Cariri, que prestou grandes benefícios ao comércio e à lavoura da região. Criou no seu episcopado 5 paróquias, entre elas a de Nossa Senhora das Dores de Juazeiro do Norte.
       A melhor biografia sobre Dom Quintino continua senda a escrita pelo Pe. Azarias Sobreira (“O primeiro Bispo de Crato”), onde destacou as virtudes morais, o espírito de pobreza e a coragem pessoal que ornavam a personalidade do ilustre prelado.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

 A primeira romaria feita a Juazeiro do Norte
      Capela de Nossa Senhora das Dores, da povoação de Joaseiro, onde em 1889 ocorreu o fenômeno do sangue na boca da Beata Maria de Araújo
     Em 6 de março de 1889, ocorreu um fato inusitado. Uma hóstia consagrada, dada em comunhão (pelo Pe.Cícero) à Maria de Araújo, transformou-se  em sangue na boca da Beata. A notícia correu – como um rastilho de pólvora – pelo interior nordestino.   Quatro meses depois do acontecido – num domingo, 7 de julho daquele ano –  aconteceu a primeira romaria feita a Juazeiro do Norte. Ela foi planejada e partiu de... Crato!
     Milhares de cratenses, sob a orientação do Mons. Francisco Rodrigues Monteiro, seguiram a pé de Crato até à “povoação do Joaseiro”.
   Amália Xavier de Oliveira, no seu livro “O Padre Cícero que eu conheci” descreveu aquela romaria. A conferir. “Do púlpito da Capela e Nossa Senhora das Dores de Juazeiro, povoação de Crato, (Mons. Monteiro) divulgou, oficialmente, perante mais de 3 mil pessoas os fatos extraordinários que se passavam ali, afirmando aos presentes, que o sangue verificado por todos, naquelas toalhas por ele apresentadas, era o próprio sangue de Jesus Cristo, arrancando dos presentes, copiosas lágrimas” E acrescentou:  "Se um dia eu negar o que vi que me falte e a luz dos olhos”.
    Anos depois, Mons. Monteiro, pressionado pelo Bispo do Ceará, Dom Joaquim Vieira, voltou atrás naquelas suas palavras, proferidas em Juazeiro. Amália Xavier de Oliveira concluiu assim seu escrito: “Mas, sem a luz dos seus olhos (Mons. Monteiro tinha cegado devido à catarata), veio ele muitas vezes a Juazeiro onde passava semanas e mais semanas, hóspede do Pe. Cícero, em casa da sua irmã Angélica, sob os cuidados de Giluca, uma Beata da família Pinheiro Monteiro que ali residia”.

Onde anda o “Projeto do Cariri”?
     Iniciado em 2002, o “Projeto Cariri” é fruto de um “Termo de Cooperação Técnica e Cientifica”, celebrado entre o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e a URCA (Universidade Regional do Cariri). 
       Seu principal objetivo é a realização de estudos e registros do patrimônio imaterial do Cariri. O “Projeto Cariri” previa a implantação, em Juazeiro do Norte, do “Roteiro da Fé” (no percurso Basílica Menor de N.S. das Dores/Capela do Socorro/Colina do Horto/Santo Sepulcro). Previa, também, a divulgação das formas de Expressão, Saberes e Fazeres do Cariri, com destaque para a Festa do Pau da Bandeira de Barbalha; as tradições populares (bandas cabaçais, grupos folclóricos, escultores e santeiros de Juazeiro do Norte); a divulgação do Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, dentre outras metas.
    No tempo em que o Prof. André Herzog foi reitor da URCA existia até um escritório do “Projeto Cariri” nas dependências daquela universidade. Depois do término da administração de André de Herzog, nunca mais se ouviu falar no “Projeto Cariri”. Será que ainda existe?

Uma preciosidade da riqueza do patrimônio histórico-religioso do Cariri
     Imagem primitiva de Nossa Senhora das Dores, venerada em Juazeiro do Norte a partir de 1827, ano de inauguração da capelinha construída pelo Brigadeiro Leandro
     Adquirida em Portugal, pelo Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, a pequena imagem de Nossa Senhora das Dores foi venerada na capela primitiva da Fazenda Tabuleiro Grande, a partir de 1827. Tornou-se, desde aquela data, a Rainha e Padroeira da povoação do “Joaseiro”. A imagem primitiva (chamada antigamente pelo povo de “Carita”), recebeu a devoção dos juazeirenses durante 60 anos. Zélia Pinheiro, autora do opúsculo "Sesquicentenário de Fé", registra que a imagenzinha pontificou no altar das duas capelas de Juazeiro até 1887. Bom lembrar que em 19 de agosto de 1884, foi consagrada a nova capela, ampla e bonita – construída Pelo Padre Cícero –  que substituiu a primitiva, esta edificada pelo Brigadeiro Leandro. 
     Assim escreveu Zélia Pinheiro: (Até 1887) “Continuava como Padroeira Nossa Senhora das Dores (a “Carita”) e fora colocada no Altar (da nova igreja) a mesma imagem trazida de Portugal para a Capelinha da Fazenda Tabuleiro Grande. Era uma imagem em estilo bizantino, de madeira, muito bem esculpida, tendo setenta e cinco centímetros de tamanho e permaneceu no Altar-Mor até setembro de 1887. Naquele ano, a imagem antiga foi trocada pela nova, adquirida na França, que até hoje está lá”.
        A imagem primitiva de Nossa Senhora das Dores, que tem 191 anos, ainda existe,  em perfeito estado de conservação.

Escritores do Cariri: Padre Azarias Sobreira
      Azarias Sobreira Lobo nasceu no dia 24 de março de 1894, no então Sítio Timbaúba (hoje um bairro citadino) em Juazeiro do Norte. Nasceu no mesmo dia em que seu padrinho de batismo –  Padre Cícero Romão Batista –  completava 50 anos de idade. Era filho de um cratense – Pedro Lobo de Menezes, descendente do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro – e da professora juazeirense Carolina Sobreira. 
    Desde criança pensava em ser sacerdote. Ele foi o primeiro juazeirense a ser ordenado padre na então mais nova Diocese do Ceará, a de Crato, com 22 anos de idade, em 22 de abril de 1917.
    Pe. Azaria foi um exemplar sacerdote. Muito culto, era filósofo, educador, professor e escritor. Dedicou-se, especialmente, ao trabalho de ampla pesquisa e profunda análise sobre o Padre Cícero. Próximo da sua morte, escreveu: “Se, neste meu ablativo de vida, me perguntasse qual a marca que me parece mais saliente em meu espírito, eu não teria medo em responder: uma inata tendência para admirar. Não propriamente os que fizeram fortuna ou conseguiram altas posições sociais, e sim os que se impuseram pela coragem das convicções, pelo domínio de seus apetites desordenados, pela compaixão para com os injustiçados e oprimidos. ”
    Escreveu e publicou dezenas de trabalhos, artigos e alguns livros. Dentre suas obras podemos destacar os seguintes livros: "O Primeiro Bispo do Crato–Dom Quintino", "Tipos e Sugestões", "Monsenhor Tabosa, Apóstolo do Ceará", "Mensagem aos Protestantes", "Minha Árvore de Família", "Zuca Sampaio, um sertanejo de escol", "José Marrocos– Em Defesa de Um Abolicionista", "Uma Flor do Clero Cearense", "Enigma de Ontem e de Hoje", "Pontos de Português", "Sacerdote Modelo" e "O Patriarca de Juazeiro", sua obra-prima, publicada em 1969. Faleceu em Fortaleza, no dia 14 de junho de 1974.

Cariri vai produzir energia eólica
     A nota abaixo foi publicada na coluna de Egídio Serpa (“Diário do Nordeste”, 06-09-2018): “Em maio, a Cemig fez um leilão para a compra de energia. O grupo francês Quaran ganhou o leilão, que incluiu os projetos desenvolvidos pela Cortez Engenharia e a Braselco, com capacidade de 240 MW de geração eólica. Os parques serão instalados no Cariri e neles serão investidos R$ 1 bilhão.
       A Quadran, maior empresa francesa do setor, terá a parceria da dinamarquesa Vestas, cuja fábrica de Aquiraz será ampliada para produzir os novos aerogeraores de 4,2 MW. A implantação do projeto – que estará pronto em 2021 e terão o Cariri como sede – começará por Missão Velha e Porteiras, estendendo-se depois para Jardim, Barbalha e Crato”.

Crato tem o seu primeiro “arranha céu”
      Os grandes edifícios (aqueles que antigamente o povo chamava de “arranha-céu”) já são abundantes, desde algum tempo, em Juazeiro do Norte. Em Crato, segunda maior cidade da Região Metropolitana do Cariri, a construção do edifício Kariris Blue Tower, com 19 andares, está na reta final. 
       O edifício fica localizado no centro da cidade, na Rua André Cartaxo, próximo ao Mercado Municipal Walter Peixoto. O Edifício Kariris Blue Tower abrigará 205 salas, 9 lojas, salão de eventos na cobertura, dentre outras sofisticações, como um aquário ornamental no hall dos elevadores. A iniciativa privada é quem tem garantido o progresso de Crato nos últimos tempos.

Um caririense ilustre: Prof. José Bizerra de Britto
     Zuza Bizerra (assim era mais conhecido o Prof. José Bizerra de Britto) foi um dos homens de bem do Cariri. Nasceu no sítio Malhada, município de Crato, em 6 de junho de 1878. Vindo cedo para estudar na sua cidade natal, foi aluno do Prof. José Marrocos. Depois estudou no Seminário São José até o curso de Teologia. Preferiu a vida de leigo, mas chegou a ser – por longos anos – um dos professores daquele vetusto educandário católico, e outros colégios de Crato. 
    Era reconhecido como emérito educador, líder católico e jornalista. Deixou vasto trabalho, prestado a sua cidade natal, nesses 3 ramos da atividade humana. O Prof. Zuza Bizerra era uma pessoa de fino trato e dotado de honestidade a toda prova. Por isso foi homem de confiança dos dois primeiros bispos de Crato, Dom Quintino e Dom Francisco de Assis Pires. Nunca se preocupou em amealhar bens materiais, por isso sempre viveu pobre, recebendo o respeito e admiração da comunidade. 
     Foi um vocacionado ao jornalismo. Dirigiu por muito tempo os dois jornais da Diocese de Crato: ”A Região” e “A Ação”. Como rábula, exerceu a advocacia em Crato e nos municípios vizinhos. Quando do seu falecimento, o escritor J.de Figueiredo Filho publicou: “Passou a vida no Magistério e a espargir o bem, munido de inteligência privilegiada e fé inquebrantável. Só ensarilhou armas quando os anos não mais lhe permitiram trabalhar”.
   Tive o privilégio de conhecer e conviver com o Professor José Bizerra de Britto, ele na ancianidade e eu ainda menino. Morávamos próximo um do outro, na Avenida Teodorico Teles. Meu pai tinha uma profunda admiração pelo velho professor, que era reconhecido por todos como um homem de bem, um cidadão exemplar em todos os aspectos.
     Recordo-me de ter lido alhures um depoimento do fundador das universidades cearenses, o eterno e admirável Reitor Antônio Martins Filho, onde ressaltava as características do homem íntegro que foi o Professor José Bizerra de Britto. Martins Filho foi aluno do Professor Zuza, na extinta Escola Técnica de Comércio de Crato, e guardou do antigo mestre a imagem de um homem de caráter, digno, honesto, sereno, justo e caridoso.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Cariri, uma região privilegiada

Localizada no centro do Nordeste brasileiro, constituindo-se um oásis – pois cercado pela paisagem seca do árido sertão nordestino – o Cariri cearense é uma região privilegiada. Lá, fica a Chapada do Araripe, a qual, dentre vários atrativos, abriga a Floresta Nacional do Araripe, onde existem redutos da Mata Atlântica no Brasil. O leque do ecoturismo da Chapada do Araripe é variegado: a flora e a fauna complementam atrações, como as trilhas que são percorridas a pé ou de bicicleta; o rapel, o voo de parapente e até balonismo. Outros atributos da Chapada do Araripe são desconhecidos dos caririenses. Confira abaixo.

Bacia Sedimentar do Araripe, o berço da Paleontologia do Brasil 
Fóssil de um Rhacolepiscionar 
Historicamente, o berço da paleontologia do Brasil é a região da Bacia Sedimentar do Araripe. Isso se comprova com o primeiro o relato (e desenho) de um fóssil brasileiro, na publicação do livro “Viagem pelo Brasil” (Reise in Brasilien) editado entre 1823 e 1831, onde consta uma referência a um peixe “Rhacolepis’, encontrado numa concessão carbonática, na região da Barra do Jardim (atual cidade de Jardim).

A riqueza dos fósseis da Chapada do Araripe
É nessa Bacia Sedimentar que fica a Chapada do Araripe, com 165 Km de extensão, estendendo-se pelas divisas do Ceará, Piauí e Pernambuco. Ela é conhecida pela sua rica biodiversidade e considerada a região fossilífera mais rica do período Cretáceo, em todo o planeta. Explicou o paleontólogo Alexandre Kellner (em entrevista à revista “Galileu”, número de agosto de 2000) que “o clima árido contribuiu para a excelente qualidade da preservação dos fósseis, ali existentes". Há cerca de 100 milhões de anos, existiam na Chapada do Araripe pequenos lagos, ocasionalmente alimentados pela água do mar. “A baixa concentração de oxigênio, no fundo desses lagos, dificultou a proliferação de bactérias e, portanto, a decomposição da matéria orgânica. Escavações ali realizadas já revelaram 350 exemplares de pterossauros de 19 espécies diferentes, sem falar de outros fósseis de animais e vegetais".
José Flávio Vieira lançará este mês seu novo livro 
O escritor cratense José Flávio Vieira, que também é médico, lançará no próximo dia 28 de setembro, seu mais recente livro, “Dormindo à borda do abismo – A medicina no Cariri cearense (1800-1900”). O lançamento do livro acontecerá no Salão de Atos da Universidade Regional do Cariri - URCA, em Crato e será apresentado por Carlos Rafael Dias, professor do Curso de História dessa Universidade.
O livro, com mais de quatrocentas páginas, farta e ricamente ilustrado, é resultado de uma profunda e longa pesquisa a partir de fontes documentais primárias e bibliográficas, a exemplo dos jornais pertencentes à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, à Hemeroteca do Instituto Cultural do Cariri, ao Departamento Histórico Diocesano Padre Antônio Gomes de Araújo e à Biblioteca Menezes Pimentel, esta última localizada em Fortaleza. Pelo cuidado com que se revestiu todas as etapas de sua elaboração, da arrojada pesquisa, passando pela apurada escrita, feita em estilo peculiar do autor, até a sua editoração, o livro é um forte candidato a obra definitiva sobre esta temática regional.
Dividida em dezessete seções, e estes em inúmeros capítulos, a obra parte de um “continuum” dos principais acontecimentos da medicina na história geral para depois abordar os aspectos da colonização branca no Ceará e no Cariri, até chegar aos fatos e processos marcantes da conjuntura regional durante o século XIX. Nada passa ao largo de sua atenção, indicando a correlação existente entre os diversos contextos de uma região. Neste sentido, percebe-se que o autor não limitou seu enfoque à medicina em si, mas realizou um verdadeiro apanhado sobre a cultura regional, estabelecendo uma relação entre os vários campos da história: do econômico ao ambiental, do político ao religioso, do artístico ao científico, etc. Assim, sua narrativa tem a qualidade de atrair todos os tipos de leitores, pois segue o ritmo dos acontecimentos com precisão e é pintada com todas as nuanças possíveis de um panorama histórico que comporta infinitos e significantes detalhes.
Comparando a feitura do livro a um projeto arquitetônico, o autor revela que este é apenas “a antessala de uma casinha”, pois seu projeto é contar a história da medicina no Cariri até a década de 1960, atingindo “com sua torre, nuvens idílicas e nebulosas”. Não paira nenhuma dúvida de que ele atingirá o píncaro de sua ambição, visto ser dotado de disciplina e paixão inerentes aos grandes historiadores e literatos.
Com este lançamento, o público leitor, na amplidão que a expressão sugere, ganha uma obra que, ao nosso ver, se tornará referência para o estudo sobre a região do Cariri, no mesmo patamar do clássico “O Cariri”, de autoria de Irineu Pinheiro que, como J. Flávio, se dividia entre a profissão médica e o diletante, mas profícuo e competente ofício de pesquisar e escrever sobre a história regional.

A “Imperatriz do Crato”
O carro-andor que conduziu, pelas ruas centrais da cidade, a imagem histórica de Nossa Senhora da Penha – na procissão último dia 1º de setembro, – tinha cerca de 4 metros de altura. A decoração do andor foi inspirada no velho Hino da Padroeira do Crato, também chamado “Imperatriz Constante”, cantado pelos fiéis cratenses nos tempos da Monarquia e nas primeiras décadas da atual fase republicana.
Por que, em Crato, Nossa Senhora era chamada de “Imperatriz” e não de Rainha? Devido à diferença que existe entre um Rei e um Imperador. Um Rei governa um reino, geralmente pequeno. O Imperador é soberano de uma grande extensão de terra. Entra aí, principalmente, a relevância da extensão territorial.
 Por exemplo, a Rússia era um Império. A  Alemanha e a união da  Áustria-Hungria também. País de dimensões continentais, o Brasil, ao tempo da monarquia, era reconhecido, mundo afora, como um Império. Tivemos dois imperadores e três imperatrizes. Daí porque os cratenses daquele tempo não chamavam Nossa Senhora da Penha de “Rainha” e sim de “Imperatriz”.

O hino "Imperatriz Constante"
A tradição popular atribui a autoria desse antigo hino a Nossa Senhora da Penha, ao então Vigário de Crato, e depois primeiro bispo desta Diocese, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva. A estrofe “Mãe Imaculada, sois no céu e na terra Imperatriz constante! ” foi escolhida como temática para o andor de 2018. A imagem histórica, no andor, foi abrigada num castelo estilizado – representando a realeza de Maria Santíssima – cercada por anjos e flores (gérberas, rosas e margaridas). As centenas de rosas que ornamentaram o carro-andor foram doadas pelo povo cratense.  
Em 2008, o então pároco Pe. Edimilson Neves (hoje Bispo de Tianguá) mandou gravar um CD que contém o antigo e o atual Hino de Nossa Senhora da Penha. Esse CD, gravado pelo Coral de Divani Cabral, ainda se encontra à venda na lojinha da catedral.

Memória – Um caririense ilustre: João Gonçalves de Sousa 
Nasceu no distrito de Mangabeira (município de Lavras da Mangabeira) em 20 de agosto de 1913. João Gonçalves de Sousa foi uma das personalidades cearenses de destaque nacional no século XX. De origem humilde, numa visita pastoral que o segundo Bispo de Crato – Dom Francisco de Assis Pires – fez à Mangabeira, o pai de João Gonçalves lhe falou da inteligência do filho. E pediu ao bispo que o levasse para estudar em Crato, no que foi atendido. Estudou no Colégio Diocesano de Crato (onde trabalhou como contínuo).
Depois rumou para Salvador (BA) levando cartas de recomendações de Dom Francisco. Passou algum tempo na capital baiana. De lá, seguiu para o Rio de Janeiro. Conseguiu aprovação em dois vestibulares: Agronomia e Direito. Concluiu Ciências Jurídicas na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.
Dotado de perseverança e inteligência privilegiada, João Gonçalves chegou a ser alto funcionário da Organização dos Estados Americanos– OEA, em Washington (EUA). Tinha mestrado em Sociologia Rural, pela Wiscousin University (EUA), onde estudou de 1944 a 1946.  Escreveu alguns livros, dentre eles: “The Regional Aproach in Exploring The Northeastern Section of Brasil” (sua Tese de Doutorado, feito nos EUA, em 1956); “Migrações Nordestinas” de 1957; “Algumas Experiências Extracontinentais de Reforma Agrária”, de 1963; “Nordeste Brasileiro: Uma Experiência de Desenvolvimento regional”, de 1979.João Gonçalves de Sousa foi Superintendente da SUDENE (1964-1966) e Ministro do Interior (1966-1967).
Teve seu nome cogitado nas articulações para a escolha indireta do Governador do Ceará, para o período 1975-1979. Era apoiado pelo então governador César Cals e pelo General Golberi do Couto e Silva, mas o escolhido foi Adauto Bezerra. João Gonçalves de Sousa nunca perdeu o contato com suas origens. Quando esteve no poder beneficiou sua vila Mangabeira com alguns melhoramentos. Faleceu em 16 de janeiro de 1979, no Rio de Janeiro.
Escritores do Cariri: Joaryvar Macêdo
Joaquim Lobo de Macêdo (mais conhecido por Joaryvar Macedo) nasceu em Lavras da Mangabeira em 20 de maio de 1937 e faleceu em Fortaleza em 29 de janeiro de 1991.Foi poeta, historiador e um dos maiores intelectuais o Cariri. Escreveu e publicou quase 50 trabalhos, alguns relevantes, dentre os quais vale citar:  “Caderno de Loucuras” (poesias); “Os Augustos”; “Um Bravo Caririense”; “A Estirpe da Santa Teresa”; “Povoamento e povoadores do Cariri”; “Império do Bacamarte” e “Temas históricos e regionais”.
Além de professor na Faculdade de Filosofia de Crato e nos principais colégios de Crato e Juazeiro do Norte, Joaryvar foi fundador do Instituto Cultural do Vale Caririense–ICVC, com sede em Juazeiro do Norte, instituição por ele dirigida durante 10 anos. Foi Secretário da Cultura do Estado do Ceará (1983–1987). Pertenceu à Academia Cearense de Letras, Instituto do Ceará, Instituto Cultural do Cariri, Instituto Genealógico Brasileiro, Academia Internacional de Ciências Humanísticas e membro-correspondente de numerosas instituições culturais do Brasil e do exterior. Foi agraciado com 12 Comendas, Títulos e Honrarias, dentre elas a Medalha José de Alencar do Governo do Estado do Ceará.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Provérbios usados no Cariri
      Outrora, nas suas conversas corriqueiras, os caririenses tinham o costume de inserir – nos seus colóquios com vizinhos e conhecidos – os tradicionais “ditados populares”. Estes resumiam o jeito do povo de entender e viver a vida naquele tempo. Relembremos alguns desses conceitos morais, muito repetidos naqueles períodos passados: “Mato tem olhos, paredes têm ouvidos”; “Brigam as comadres, descobrem-se as verdades”; “Boi sonso é que arromba a cerca”; “Ladrão de  tostão, ladrão de milhão”; “Cajueiro doce é que leva pedradas”; “Não  há fogo ameno, nem inimigo pequeno”; “O bom remédio amarga na boca”; “A bocas loucas, orelhas moucas”; “Ser valente com os fracos é covardia”; “Quem vê cara não vê coração”; “Para desaforado, desaforado e meio”; “De pequena fagulha, grandes labaredas”; Mais fere má palavra do que aguda espada”; “Quem debocha não tem bom coração”.

O Cariri no tempo da UDN e  PSD

     Na tumultuada tradição republicana do Brasil, o Cariri viveu 20 anos de democracia plena.  Depois da queda da ditadura de Getúlio Vargas (mais uma), que perdurou de 1930 a 1945, nosso país vivenciou – entre 1945 ao início de 1964 – uma democracia plena. O Cariri teve prestigio político nesses anos.
    Tivemos, àquela época, uma geração de políticos respeitados pela população, e filiados aos partidos que haviam surgido pós-ditadura Vargas: PSD, UDN, PTB, dentre outros. Eles representavam as correntes de opinião da época. Quem se filiava a um desses partidos permanecia fiel a ele por toda a vida. Diferente de hoje quando os políticos mudam de legenda como quem muda de camisa.
     Naqueles vinte anos, elegeram-se, pelo Cariri, deputados federais políticos da envergadura moral de um Alencar Araripe, Joaquim Fernandes Teles e Leão Sampaio, todos da UDN. Pelo PSD tínhamos Wilson Gonçalves (deputado estadual, vice-governador do Ceará e Senador da República). Nos dias atuais, com mais de 1 milhão de habitantes, a Região do Cariri não tem um único deputado federal. Houve uma época em que, apesar da economia fraca, pequena população e isolamento da nossa região (em relação aos centros mais adiantados do Nordeste) o Cariri era um celeiro de bons políticos, pois muitos deputados estaduais cearenses eram originários dos municípios caririenses. A exemplo de Wilson Roriz, Conserva Feitosa, Filemon Teles, Pio Sampaio, Napoleão Araújo, dentre outros. Bons tempos aqueles. Hoje o Cariri tem pouca força politica.

Escritores caririenses: Monsenhor Francisco Holanda Montenegro
    Nasceu em Jucás (CE) em 25 de fevereiro de 1913 e faleceu em Crato, no dia 10 de abril de 2005. Foi diretor do Colégio Diocesano de Crato durante 50 anos. Sacerdote culto, sério, foi membro do Conselho de Educação do Estado do Ceará e professor da Faculdade de Filosofia de Crato.
    Era sócio do Instituto Cultural do Cariri, ocupante da Cadeira 9, cujo patrono é Dom Francisco de Assis Pires. Proferiu importantes conferências em instituições culturais do Nordeste brasileiro. Ao lado de suas exaustivas atividades de professor e sacerdote, fazia pesquisas que resultaram em vários livros importantíssimos para o resgate da história do Cariri.
       São de autoria de monsenhor Montenegro os livros: “As Quatro Sergipanas” (publicado pela Universidade Federal do Ceará, onde resgata a genealogia dos primeiros desbravadores do Cariri);  “Monsenhor Pedro Rocha de Oliveira– O Apóstolo da Caridade” (biografia deste ilustre sacerdote); “Os Quatro Luzeiros da Diocese” (resgate da história inicial da Diocese de Crato através da biografia dos seus quatro primeiros bispos); “Fé em Canudos” (mostrando o lado místico do lendário Antônio Conselheiro, líder da comunidade de Canudos). Escreveu ainda vários trabalhos (publicados em revistas e jornais), com destaque para uma biografia de Dom Quintino, primeiro bispo da Diocese de Crato.
          Mons. Montenegro foi agraciado com diversas comendas e honrarias, dentre elas: a Medalha da Abolição (a mais alta comenda do Ceará); Medalha Justiniano de Serpa, da Secretaria da Educação do Ceará; Medalha do Mérito Bárbara de Alencar, da Prefeitura de Crato; Medalha Educador Emérito, do Ministério da Educação. Um valoroso intelectual, uma grande figura humana!

O papel das “elites” para o progresso do Cariri
   
Em 1838, o naturalista escocês George Gardner esteve em Crato. De volta à Inglaterra assim ele descreveu (no livro “Viagem ao interior do Brasil) Crato e sua sociedade: “Toda a população da Vila chega a dois mil habitantes, na maioria todos índios ou mestiços que deles descendem. Os habitantes mais respeitáveis são brasileiros, em maioria negociantes; mas como ganham a vida as raças mais pobres é coisa que não entendo”(...) “A moralidade dos habitantes de Crato é, em geral, baixa; o jogo de cartas é sua ocupação principal, durante o dia; quando faz bom tempo, veem-se grupos de todas as classes, desde os que se chamam “gente graúda” até as mais baixas, sentados nos passeios, à sombra da rua, profundamente absorvidos pelo jogo (...) “São então frequentes as brigas, que muitas vezes se resolvem a faca’.
      

Quando esse panorama começou a mudar
     O historiador cratense Irineu Pinheiro escreveu no seu livro “O Cariri”:
     “ (Somente) no meado do século XIX, começou a ascender o estalão moral da sociedade de Crato, que podemos considerar padrão de toda a zona caririense. Até então era inferior o nível de moralidade do lugar. Um dos motivos de aperfeiçoamento dos costumes foi a emigração para Crato de famílias, especialmente de Icó, cujo esplendor principiava a declinar. Fixaram-se na nova terra fértil, menos sujeita às crises climáticas, enriquecendo-a com seu labor e, portanto, civilizando-a, os Alves Pequenos, os Candeias, os Bilhares, os Garridos, os Linhares, os Gomes de Matos e outros cujas descendências se prolongaram até nós. Frutificaram os bons hábitos familiares dos recém vindos”.
       A chegada a Crato dessas famílias vindas de Icó (uma cidade dotada, à época, de bonitos prédios e bom comércio, com uma população profundamente católica e mais educada do que as das vilas caririenses) teve influência decisiva para a mudança da vida religiosa, política, social e cultural do Cariri.  Antônio Luís Alves Pequeno, um dos chegados de Icó, tinha a patente de Coronel da Guarda Nacional. Praticavam hábitos e conduta de um homem empreendedor e logo se tornou influente no cenário político da cidade. Foi Presidente da Câmara Municipal, em 1853, pouco antes de o Crato ser elevado à categoria de cidade. Construiu o primeiro sobrado de Crato, feito nos moldes dos existentes em Recife.

 As elites caririenses do passado
     A partir daí começaram os frutos benéficos dessa elite. Nestes tempos medíocres e confusos, ora vivenciados – de maneira mais visível no nosso querido e sofrido Brasil – a maioria da população desconhece não só o significado da palavra “elite”, mas, e, sobretudo, o real papel que uma verdadeira “elite” exerce para a formação da sociedade na qual está inserida. A elite (hoje erroneamente confundida com o sinônimo de “burguesia” ou de "rico") se constituiu – no final do século XIX e durante as décadas iniciais do século XX –  numa força para a construção de uma sociedade saudável e fraterna. No Cariri – daquela época – as verdadeiras elites formavam a parcela mais educada, mais preparada, a que conservava os valores éticos, morais, religiosos e sociais. Barbalha, por exemplo, possuiu, naqueles tempos passados, uma elite assim. Ela formava a camada social honrada, respeitada, digna e filantrópica.  Deve-se àquela essa elite o que a “Terra de Santo Antônio “conquistou de melhor em favor daquela comunidade, cujas realizações perduram até os dias atuais.

Zuca Sampaio, arquétipo da elite barbalhense
                                                     O Chalé de Zuca Sampaio, em Barbalha

      José de Sá Barreto – mais conhecido como Zuca Sampaio – foi um arquétipo da elite barbalhense no período acima citado. Ele tinha consciência de que seus bens patrimoniais, seu prestígio social e até seu talento pessoal deviam ser postos em favor dos menos favorecidos. Que o seu trabalho como cristão e cidadão deveria elevar o estamento social da sua cidade natal. E fê-lo dando aos seus afazeres a finalidade de beneficiar sua família, seus amigos e as pessoas necessitadas da sus comunidade. 
    Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída pelas famílias barbalhenses no inicio do século XX

        Zuca Sampaio trabalhava, o dia inteiro, no seu estabelecimento comercial, com ligeiro intervalo para o almoço. Próximo ao pôr-do-sol, passava na sua residência para o jantar. Em seguida, pegava o candeeiro, livros, cadernos, lápis e ia ensinar as primeiras letras no “Gabinete de Leitura” (instituição por ele fundada) e destinada à alfabetização de pessoas carentes de Barbalha. Ali, ministrava a doutrina cristã, os princípios morais e o amor à pátria. Foi o leigo católico de maior projeção daquela cidade. Presidiu, por longos anos, a Conferência de São Vicente de Paulo (da qual foi um dos fundadores), amparando a pobreza de Barbalha.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018









O poeta Zé de Matos
“As cidades são feitas de poesias e de pessoas”, diz um velho adágio. A ser verdade este aforismo, está explicado porque, ainda hoje, a memória de Zé de Matos continua presente em Crato e no Cariri. Dele pouco se sabe. Exceto que era analfabeto, pobre e boêmio. Sequer se sabe a data e o lugar do seu nascimento, embora ele dissesse que veio ao mundo em Crato. Faleceu em 1904. Provavelmente em Caririaçu. Restaram dele a tradição oral de suas improvisações poéticas, sempre inspiradas quando estava sob o efeito de conhecido produto dos alambiques caririenses. Abaixo duas delas:


‘Terra boa é o Cariri,
tem mangaba e tem pequi,
tem muita moça bonita
e cabra bom no fuzi.
Mas arredó de sete légua
tem cabra fi duma égua,
que nega até um pequi”

Noutra ocasião, Zé de Matos versejou sobre as “famílias tradicionais”

“Nunca vi Teles valente
nem Quezado trabalhador,
Pinheiro inteligente
e Alencar rezador
da Família dos Bezerra
só o Zeca dos Currais
mesmo assim não é certo,
dá prá frente e dá prá trás”

As reservas fossilíferas do Cariri
   
A Chapada do Araripe, caracterizada por sua rica biodiversidade, foi pioneira na criação da primeira floresta protegida do Brasil. Há mais de setenta anos – quando não se falava em ecologia ou biodiversidade – através do Decreto n° 9.226, de 02 de maio de 1946, o Governo Federal criou a primeira reserva florestal do Brasil: a Floresta Nacional do Araripe. Em 1997, ela foi ainda mais protegida, desta feita com a criação da Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe.
        Lá fica, também, outra riqueza que remonta a milhões de anos: as maiores jazidas fossilíferas do período cretáceo em todo o planeta. São os fósseis de peixes e até de pterossauros. A Bacia Sedimentar da Chapada do Araripe é considerada um dos mais importantes sítios paleontológicos do mundo.

A verticalização de Juazeiro do Norte
    Até o início do presente século, poucos eram os grandes edifícios existentes na conurbação Crajubar. Capitaneada por Juazeiro do Norte, as construções de grandes prédios residenciais se alastram pelas áreas citadinas do Crajubar. Maior cidade do Cariri, Juazeiro do Norte passa por um processo de verticalização. Esta cidade se tornou um polo de desenvolvimento de uma das mais ricas regiões do Ceará. A Terra do Padre Cícero conta com uma boa infraestrutura atendendo às diversas áreas, como educação, saúde, malha aeroportuária e rodoviária, dentre outras. A economia de Juazeiro do Norte exerce hoje influência sobre uma população estimada em três milhões de habitantes, espalhada por municípios limítrofes do Cariri com os estados da Paraíba, Pernambuco e Piauí e todos as cidades do centro-sul do Ceará.

O livro do mês de agosto
    Raro é o mês do ano que não temos lançamento de um novo livro em Crato. No último dia 14 de agosto – data do Jubileu de Prata da ordenação episcopal de Dom Fernando Panico – amigos deste bispo lançaram o livro “Corações ao alto”. Uma publicação com depoimentos e testemunhos sobre o edificante ministério deste bispo, nas duas dioceses de onde foi titular: Oeiras–Floriano (PI) e Crato (CE). Organizado por Enoque Fernandes de Araújo e publicado pela Gráfica JB, de João Pessoa (PB), o livro tem 174 páginas e 9 capítulos. Cada um escrito por Armando Lopes Rafael, Pe. Acúrcio de Oliveira Barros, Madre Maria Aparecida Couto (Abadessa do Mosteiro Beneditino de Juazeiro), Eduardo Henrique Valentim, Aroldo Braga, Irmã Annette Dumoulin e Maria do Carmo Pagan Forte.
     São revelados, no livro, detalhes pouco conhecidos de Dom Fernando Panico, destacando sua fidelidade ao Evangelho, o serviço aos pobres, aos romeiros do Padre Cícero e ao compromisso com uma Igreja orante e missionária, onde é realçado o perfil da ação evangelizadora do atual Bispo-emérito de Crato.

O livro do mês de setembro
      Abaixo, o convite para o lançamento do livro póstumo de Manoel Patrício de Aquino (Nezinho) que ocorrerá na noite do próximo dia 6 de setembro, na sede do  Instituto Cultural do Cariri.
Missão Velha e a “Proclamação da República”
                                        A belíssima igreja-matriz de São José de Missão Velha

      Leitor de “Caririensidade”, o historiador missãovelhense João Bosco André escreveu-nos para concordar com a nota (publicada na coluna da semana passada), sobre o mandonismo dos “coronéis”, novos detentores do poder municipal, após o golpe militar de 15 de novembro de 1889.  Aquela quartelada derrubou a monarquia constitucional do Brasil e impôs – sem apoio popular – o regime republicano a nossa pátria.   No livro que João Bosco André escreveu (“Documentos para a história de Missão Velha”, na página 114) ele resgata o fato de a Câmara de Vereadores, daquela cidade, a exemplo da de Crato, só reconhecer o novo governo republicano 1 (um) mês e 5 (cinco) dias depois da queda da monarquia.
     Qual o motivo dessa demora? João Bosco André dá sua versão:  “Vê-se claramente que os vereadores de Missão Velha estavam reticentes (em cima do muro) com medo de o novo regime republicano não dar certo”. Não só isto. O historiador missãovelhense complementa o comentário: “O Vereador Róseo Jamacaru, renunciou (ao mandato) em 13 de fevereiro de 1890 (três meses depois do golpe militar), alegando que seus colegas vereadores eram mais monarquistas do que republicanos”.

Escritores do Cariri: Raimundo de Oliveira Borges
    Nasceu na vila de São Pedro do Crato – depois São Pedro do Cariri, (hoje Caririaçu) – em 02 de julho de 1907.Faleceu com mais de 102 anos, em 10 de julho de 2010. Jurista, historiador e escritor. Foi diretor das 3 Faculdades pioneiras de Crato: a de Filosofia, a de Ciências Econômicas e a de Direito. Presidente, em vários mandatos, do Instituto Cultural do Cariri. Escreveu cerca de 30 livros sobre os mais variados temas, frutos de meticulosas pesquisas, a exemplo de “O Coronel Belém de Crato, um injustiçado”; “Memória Histórica da Comarca do Crato”; “O Padre Cícero e a Educação em Juazeiro”; “Serra de São Pedro”; “Crato intelectual”.
   Foi Secretário da Prefeitura de Crato; Promotor Público em várias comarcas e, depois de aposentado, advogou por várias décadas. Foi político. Presidente, diversas vezes, da Expocrato; do Rotary Clube de Crato e da Associação dos Criadores de Crato. Prestou relevantes serviços à região Sul-cearense, a exemplo da Campanha de Eletrificação do Cariri.
   Ao falecer, seus filhos transformaram sua residência (localizada no centro de Crato, em frente à Reitoria da URCA) no “Memorial Raimundo de Oliveira Borges”. Um grande escritor, um exemplar cidadão e chefe de família; um homem de bem a toda prova!
História: Quem fundou Juazeiro do Norte? A opinião de Amália Xavier de Oliveira
Juazeiro Primitivo - óleo sobre tela de Assunção Gonçalves. A casa grande, à esquerda, pertencia ao Brigadeiro Leandro. À direita,a capelinha  de Nossa Senhora das Dores.

      A educadora e historiadora Amália Xavier de Oliveira sempre defendeu que foi o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro o fundador da Juazeiro do Norte. Num dos livros que escreveu (“O Padre Cícero que eu conheci: verdadeira história de Juazeiro do Norte”, 3ª edição, Editora Massangana, 1981, página 33) Amália afirmou:
“Com o falecimento do Brigadeiro, ocorrido em 1831, as terras onde havia sido edificada a capelinha de Nossa Senhora das Dores e as que foram destinadas ao patrimônio da mesma, passaram aos herdeiros do Brigadeiro, ficando no espólio de dois de seus filhos: Gonçalo Luiz Teles de Menezes e Joaquim Antônio Bezerra de Menezes. Estes doaram aquelas terras ao patrimônio de Nossa Senhora das Dores conforme ainda hoje existe e cuja escritura está no Cartório de Crato. Estas duas certidões cujas cópias tenho em meu poder e poderão ser vistas no original do 1º Cartório de Crato, são suficientes para confirmar que o fundador do Povoado de Juazeiro, iniciado com a construção da Capelinha, foi o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro e os primeiros povoadores foram os seus descendentes, existindo ainda hoje muitos deles aqui representados pela família Bezerra de Menezes espalhada em todo o Ceará e ainda em diversos estados do Brasil".  (Grifos meus).

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A época em que os coronéis da Guarda Nacional mandavam e desmandavam no Cariri
    Segundo o historiador Irineu Pinheiro (“Efemérides do Cariri”, página 165), somente em 21 de dezembro de 1889 (1 mês e 6 dias depois do golpe militar que impôs a República no Brasil) a Câmara Municipal de Crato realizou a sessão para aderir a nova forma de governo implantada em 15 de novembro daquele ano. 
     Donde se conclui que as notícias sobre a "proclamação" da República chegaram ao Cariri num clima de total indiferença por parte da população. Não existiam – em Crato e demais cidades caririenses – simpatizantes do movimento republicano.
      Em Fortaleza, a capital do Ceará, a notícia do golpe militar chegou pelo telegrafo já que havia esse tipo de comunicação entre Fortaleza e o Rio de Janeiro. Já as comunicações entre o Cariri e a capital da Província eram precárias. Não havia, entre as duas cidades, linhas telegráficas.  Gastava-se um mês nas viagens entre Fortaleza e Crato, esta última, àquela época, a cidade mais importante do Cariri.
      O “coronelismo” foi um fenômeno que cresceu muito com a chamada “Proclamação da República”. Durante a Primeira República (1889-1930), o coronelismo acentuou-se como poder local nas cidades do interior nordestino. Os coronéis passaram a exercer o chamado “mandonismo político”. Crato não ficou imune ao fenômeno. Com a derrubada da monarquia – e a expulsão do Imperador Dom Pedro II e sua família, – o brasileiro comum não tinha mais a quem recorrer (com a mesma confiança e imparcialidade  existentes nos tempos imperiais) a um poder isento para resolver seus problemas.

Como surgiu a famosa “Lei de Chico Brito”
 Cel.Chico de Brito

     Entre 1896-1912 – por 16 anos – governou o Ceará a oligarquia dos Accioly. Vem de longe, como se vê, a tradição de “famílias importantes” dominarem o poder no Ceará. Era “Intendente” de Crato, àquela época, o Cel. Antônio Luiz Alves Pequeno, fiel ao clã Accioly. “Intendente” era como se chamava (no início dos conturbados tempos republicanos), o atual cargo de “Prefeito Municipal”. Derrubado o Governo Accioly, assumiu o Coronel Franco Rabelo. Este, nomeou como novo intendente de Crato seu aliado, o Coronel Francisco José de Brito.
       O antigo intendente Antônio Luiz Alves Pequeno não quis entregar o cargo. O Coronel Francisco José de Brito, inteligente e astuto, foi ao Lameiro e trouxe até a Praça da Sé (onde ficava o prédio da Intendência) um grupo de amigos. Encontrando a Intendência fechada, arrombou a porta e sentou-se na cadeira do Intendente anterior. Nisto apareceu o Dr. Irineu Pinheiro, sobrinho do Cel. Antônio Luiz. Irineu Pinheiro (que depois seria um dos maiores historiadores do Cariri) ficou revoltado e perguntou:
– “Mas que lei é essa na qual o Sr. se arrima para assumir a Intendência”?
     O Cel. Chico de Brito, tranquilamente, sentenciou:
– “É a “Lei de Chico de Brito”! Esta lei eu mesmo fiz. E estamos conversados”.

Potengi: o maior polo de ferreiros do Cariri
    Potengi, pequena cidade do Sul-cearense, possui o maior polo ferreiro do Cariri. Ali se fabrica facas, foices e outros artefatos de ferro, cuja produção é vendida no comércio local e exportada para outros municípios do Ceará, Piauí e Maranhão.  Potengi é conhecida como “a cidade que não dorme”. Isso devido aos produtos da metalurgia, serem moldados em meio a grande calor, quando o ferro é aquecido – em uma forja que se mantém quente graças a um fole operado a mão – até ficar vermelho-brilhante. A seguir, o ferreiro vai batendo e dando forma aos objetos.
    Em Potengi, os ferreiros sempre começam a trabalhar à meia-noite quando a temperatura é mais amena. Manualmente, o ferro é modulado sobre as bigornas E nessa hora começam as batidas dos martelos sobre o ferro, ecoando pela pequena cidade. Chega a parecer uma sinfonia metálica, esse martelar! Batidas que só terminam com o nascer do sol, quando os ferreiros vão dormir e Potengi inicia novo dia de atividade normal. 

Memória: Um caririense ilustre
    Antônio Martins Filho cognominado “O Reitor dos Reitores”, nasceu em 22 de dezembro de 1904, no sítio Santa Teresa (Missão Velha), mas foi registrado como tendo vindo ao mundo em Crato. Faleceu em Fortaleza, em 20 de dezembro de 2002, dois dias antes de completar 98 anos.
    Era de família pobre e exerceu empregos muito humildes como trabalhador braçal na construção da estrada de ferro Fortaleza–Crato. Mas já aos 18 anos foi um dos fundadores do Academia dos Infantes de Crato (1922). Nasceu para ser grande. Membro de Academias, Institutos, Conselhos de Educação (estaduais e federal), “Doutor Honoris Causa” de dezenas de universidades brasileiras e estrangeiras.
  Escreveu 30 livros sobre Ciências Jurídicas, História, Educação, Literatura e Economia.  Foi agraciado com 12 condecorações de instituições brasileiras e do exterior. No entanto, passou à história como o “Criador de Universidades”.
     Para ficar apenas no Ceará, ele foi fundador, e primeiro reitor, tanto da Universidade Federal do Ceará, como da Universidade Regional do Cariri–URCA. Fundou também a Universidade Estadual do Ceará. Não existe nenhuma rua de Crato com o nome do Dr. Martins Filho. Mas existem, nesta cidade, duas ruas: a Rua Lagarta Pintada (no bairro Lameiro, CEP 63112-125) e a Rua Soldadinho do Araripe (no bairro Vilalta, CEP 63119-085). Mesmo com o crescimento da cidade, os vereadores fingem não ter mais gente ilustre para homenagear como patrono das ruas de Crato.

Embrapa investe no pequi
A beleza da flor do pequizeiro

     Com o título acima, transcrevo nota publicada na coluna de Egídio Serpa (“Diário do Nordeste”, 09-08-2018):
   “Fruta muito consumida pelos cearenses da região do Cariri, o pequi nunca foi tratado com a atenção que merece, pelo menos até agora. A Embrapa Agroindustrial, com sede em Fortaleza, anuncia que dará apoio a um projeto de pequenos produtores que querem agregar valor ao pequi, beneficiando-o pela via industrial, usando para isso o processamento a frio para beneficiar o óleo extraído, artesanalmente, da polpa do fruto. Quer a Embrapa fortalecer a atividade dos agricultores e coletores de pequi e gerar emprego e renda na região do Cariri”.

Cariri poderá ganhar sua primeira santa: a menina Benigna
    O bispo de Crato, Dom Gilberto Pastana de Oliveira, já recebeu o livro “Positio” encerrando a penúltima fase da beatificação da “Serva de Deus” Benigna Cardoso da Silva, a menina Mártir de Castidade. Em outubro esse “Positio” será analisado pelo grupo de teólogos, da Congregação para a Causa dos Santos, que poderá declarar Benigna “Venerável”. Depois disso ela poderá ser proclamada “Beata”, última etapa que antecede a canonização.
      Séculos atrás era mais fácil a Igreja Católica canonizar um “Santo”. Hoje o processo é demorado e difícil. No século XIV a Santa Sé passou a autorizar a prestação de culto, limitado a determinados lugares, a alguns “Servos de Deus” cuja causa de canonização ainda estava em andamento ou sequer tinha sido iniciada. Esta concessão, orientada para a futura canonização, é a origem do que se denomina hoje de “beatificação”. A partir do Papa Sisto IV (1483), os “Servos de Deus” aos quais se prestava um culto limitado passaram a ser chamados de “Beatos” ou “Bem-Aventurados”. Ficou assim estabelecida em caráter definitivo a diferença entre os títulos de “Bem-Aventurado” – o servo de Deus que foi beatificado – e “Santo”, o Beato que foi canonizado.
        Parece um sonho!  Mas a menina-mártir de Santana do Cariri, Benigna Cardoso da Silva, poderá ser a primeira santa do Estado do Ceará.

  História: Padre-mestre Ibiapina e suas passagens pelo Cariri

   Embora nascido em Sobral, em 5 de agosto de 1806, o adolescente José Antônio Pereira Ibiapina viveu – entre 1819 e 1823 – em Crato (onde frequentou aulas de religião com o vigário José Manuel Felipe Gonçalves) e na cidade de Jardim (onde estudou latim com o mestre Joaquim Teotônio Sobreira de Melo). Depois de ordenado sacerdote ele voltaria outras vezes ao Cariri, onde construiu as Casas de Caridade de Crato, Barbalha, Missão Velha e Milagres, bem como a igreja, cemitério e um açude em Jamacaru.
    Na vida civil Ibiapina foi professor de Direito Natural na Faculdade de Olinda; foi eleito Deputado Geral (hoje deputado federal) representando o Ceará na Câmara Legislativa, no Rio de Janeiro; foi nomeado Juiz de Direito e Chefe de Polícia da Comarca de Quixeramobim (CE). ExeRceu a advocacia em Recife. Abandonou tudo isso e, aos 47 anos, foi ordenado Padre da Igreja Católica. A partir daí, percorreu o interior do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco levando o conforto, através da palavra para o povo sofrido do sertão nordestino. Mas não só isso. A cavalo ou a pé, sempre vestido com a batina, pregava nas “missões”; paralelamente, construía igrejas, capelas, cacimbas, açudes, cemitérios e hospitais. Chegou a construir mais de 20 Casas de Caridade para moças órfãs e carentes.
    Sobre ele, escreveu Gilberto Freyre: “ Ibiapina foi realmente uma enorme força moral a serviço da Igreja e do Brasil. [...] exemplos como o do padre Ibiapina – que,  sozinho, fundou e organizou vinte casas de caridade nos sertões do Nordeste – se impõem aos brasileiros como grandes valores morais”. Faleceu no município de Solânea, na Paraíba, em 19 de fevereiro de 1883. Sua causa de beatificação corre na Congregação para a Causa dos Santos, do Vaticano.
   Ao Padre Ibiapina se aplica com toda justeza as palavras do livro bíblico “Eclesiástico”: “Meu filho, se entrares para o serviço de Deus, permanece firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a provação; humilha teu coração, espera com paciência, dá ouvidos e acolhe as palavras da sabedoria; não te perturbes no tempo da infelicidade, sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus, espera com paciência, a fim de que no derradeiro momento tua vida se enriqueça”. (Eclo 2,1-3)



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