CARIRIENSIDADE

Blog editado por Armando Rafael. Contato com o editor: armando.rafael@terra.com.br

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O violino do Padre Cícero
    Este famoso sacerdote – nascido em Crato e existência quase toda vivida em Juazeiro do Norte – continua sendo o arquetípico do caririense: religioso, temente a Deus, caritativo e de boa índole.  Episódios da vida desse invulgar sacerdote continuam a ser “redescobertos”. A fama do Padre Cícero só faz crescer, principalmente depois da “reconciliação” que a Igreja Católica adotou no tocante à herança espiritual do sacerdote.
    Tempos atrás foi publicado por Joaquim Arraes de Alencar Pinheiro Bezerra de Menezes (carrega no DNA a boa índole de paz, honradez e benquerença do pai, Cesar Pinheiro Teles. Joaquim tem também no sangue os ideais políticos da defesa social dos pobres,  herança da família materna, cujo exemplo maior foi seu tio, o ex-governador  Miguel Arraes de Alencar) um artigo sobre um violino que o Padre Cícero adquiriu quando de sua única visita à Roma, para se defender das acusações e sanções impostas pelo Bispo de Fortaleza.
       Como dizia, Joaquim Pinheiro resgatou, naquele escrito, que o Padre Cícero trouxe de Roma dois violinos. Um deles foi presenteado a um parente do sacerdote. O outro, Pe. Cícero deu, em 1929, ao seu afilhado (por quem o sacerdote tinha grande afeto) o tabelião Antônio Teófilo Machado (mais conhecido por Machadinho), titular de um cartório em Crato durante décadas no século passado.

Sobre o violino
     Trata-se de um Maggini, modelo 1715, provavelmente adquirido de segunda mão, uma vez que a marca havia deixado de ser fabricada décadas antes de ser adquirido pelo Padre Cícero. Segundo Joaquim Pinheiro, no fundo do instrumento, embaixo da tampa, foi colado um papel e nele consta: “Adquirido pelo Pe. Cícero em Roma – Itália 1898. Of. a Antônio Machado em 26/03/1929 – Ceará – Juazeiro”.
     Antônio Machado tinha grande amor pelo violino, mas cedeu-o gratuitamente ao músico Paulino Galvão que passava uma temporada em Fortaleza. Indo morar no Rio de Janeiro, Paulino Galvão foi colega de orquestra do violinista cratense Virgílio Arraes, um “spalla” da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ambos tocaram em outras orquestras e trabalharam juntos em muitas ocasiões, inclusive em gravações de cantores famosos brasileiros. Paulino Galvão requereu sua aposentadoria e mudou-se para uma cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, deixando de tocar profissionalmente. Uma curiosidade: apesar de raro e do valor incalculável, o violino jamais foi comercializado, após chegar ao Brasil. Por isso passou, sucessivamente, de mãos em mãos, sempre a título de presente ou doação.

Nas mãos de Virgílio Arraes
       Passados alguns anos, Virgílio Arraes resolveu visitar Paulino Galvão na cidade onde estava morando e manifestou desejo de adquirir o violino que pertencera ao Padre Cícero. O músico aposentado respondeu que o instrumento era valioso demais para ser vendido e por esta razão não o venderia. Mas, na hora da despedida, pediu para o visitante aguardar um pouco. Voltou ao interior da casa e retornou com o instrumento raro, e o entregou a Virgílio Arraes, dizendo que era presente. Apenas pediu que cuidasse bem dele.
    Depois disso, o violino do Padre Cícero, foi presenteado a várias pessoas. Nunca foi vendido. E ainda hoje está bem guardado e bem conservado. Dias atrás, Joaquim Pinheiro me deu a notícia de que – mantendo a tradição – o violino mais uma vez trocou de mãos. Ele foi doado, por Virgílio Arraes, a uma profissional da música erudita, no caso a Professora Yeldes Machado, que vem a ser descendente do tabelião Antônio Teófilo Machado (Machadinho).

Saiba mais sobre Virgílio Arraes Filho 

  Damos a palavra a Joaquim Pinheiro: “O ex-proprietário do violino do Padre Cícero, Virgílio Arraes Filho, merece comentário à parte. Nascido no Crato, filho de Virgílio Arraes e de Marcionilia de Alencar Arraes, surpreendeu sua mãe quando, aos oito anos, afinou e tocou o bandolim a ela pertencente, sem nunca ter tido uma única aula de música. Diante do prodígio, seus pais procuraram o maestro da banda municipal para que lhe transmitisse noções da 1ª arte. 
      Ainda criança, ouviu uma música no rádio e sentiu-se atraído pelo som do violino, que jamais havia visto. Comunicou aos pais que não queria mais tocar bandolim e sim violino. “Seu” Virgílio (proprietário da primeira sorveteria do Crato – Sorveteria Brasil - e ex-prefeito de Campos Sales, onde nasceu) mandou buscar o instrumento no Rio de Janeiro. Resolvido um problema, surgiu outro: não havia professor no Cariri. A família mudou-se para Fortaleza. Os mestres da capital cearense perceberam o enorme talento do aluno e aconselharam o aluno brilhante ir estudar na então capital brasileira, o Rio de Janeiro.
      No Rio de Janeiro a carreira foi meteórica: primeiro lugar no vestibular na escola de música da UFRJ (1953), primeiro colocado no concurso público para a orquestra do Teatro Municipal, onde foi o primeiro violonista (“Spalla”) durante muitos anos. Músico da Orquestra Sinfônica Brasileira, da orquestra da TV Globo e muitos outros feitos. Único músico a tocar no cinquentenário (1959) e centenário do Teatro Municipal do RJ. Em seu currículo constam performances nos mais importantes palcos do mundo, inclusive com a orquestra do Royal Ballet de Londres, onde foi aplaudido pela realeza Inglesa e recebeu cumprimentos pessoais da princesa Anne, filha da Rainha Elizabeth II.
      Participou de gravações com consagrados nomes da MPB, como Roberto Carlos, Chico Buarque de Holanda, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Simone, Fagner, Djavan, Dalva de Oliveira, Orlando Silva e muitos outros”.

  Mestres da Cultura do Cariri

   Dos onze Mestres da Cultura, selecionados recentemente pela Secretaria de Cultura do Ceará, 6 (seis) são do Cariri. A conferir. De Juazeiro do Norte: Mestre de Reisado Antônio, Mestre de Banda Cabaçal Expedito Caboco e Siará, Mestre Cabaceiro. De Crato: Mestre de Luxeria em Lixo Reciclável Aécio de Zaíra e o Mestre em Dança de Coco Dona Edite do Coco. Da cidade Aurora foi selecionado o Mestre em Esculturas Gil D’Aurora, que também fabrica rabecas. Eles são chamados de “tesouro vivo da cultura popular cearense”.

O que são os Mestres da Cultura
   Anualmente, a Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) seleciona e diploma pessoas, grupos ou comunidades que realizam com maestria o delicado trabalho de preservar as tradições culturais que nasceram e se firmaram de forma espontânea no nosso Estado. Eles são chamados de “Mestres da Cultura”. Entre as dezenas de mestres que existem nas cidades e comunidades cearenses, a Secult realiza uma seleção via edital desde o ano de 2004, quando este programa foi criado pelo ex-governador Lúcio Alcântara. Os escolhidos para o título de Mestre da Cultura recebem do Estado auxílio vitalício de um salário-mínimo por mês.

Um “Mestre da Cultura” de Barbalha
 "Seu" Jaime
 Jaime Arnaldo Rodrigues, “Seu” Jaime, 76 anos, possui um fábrica de mosaicos na cidade de Barbalha. Hoje, as novas gerações só conhecem os revestimentos de pisos feitos com ladrilho-cerâmico industrializado. Mas, até a década 70 do século passado, os pisos no Cariri eram revestidos com mosaicos artesanais. Existiam muitas fábricas de mosaicos no Cariri. Todas desaparecem com a chegada do piso-cerâmico. O artesão Jaime Arnaldo Rodrigues passou mais de 40 anos produzindo – na cidade de Barbalha – mosaicos artesanais. E voltou a fabricá-los há poucos anos. Por isso recebeu o título de “Mestre da Cultura” da Secult-Ceará.

Por que o mosaico tem valor?

                                                     Mosaicos fabricados em Barbalha

     Alguns leitores podem perguntar: e qual a importância artística do mosaico?. Embora não seja mais fabricado, o mosaico, além de ecológico, possui valor artístico e histórico que merece preservação. Trata-se de um ladrilho, feito de placa de cimento, areia, pó de mármore e pigmentos com superfície de textura lisa. O mosaico é um dos traços da cultura do Cariri que nos liga forte e imediatamente à península ibérica e seus valores não apenas europeus, mas fortemente orientais, via universo moçárabe. O mosaico vem do processo de fabricação onde a cura se dá na água, sem qualquer processo de queima, que agrida o meio ambiente. Além do mais, o mosaico possui alta resistência ao desgaste. 
     Tem um formato quadrado, de 20 x 20 cm, com acabamento liso e cores firmes, além de ser um produto artesanal, hoje raríssimo. Dai a importância de se preservar a produção do mosaico na cidade de Barbalha. O antigo Palácio Episcopal Bom Pastor, residência dos bispos de Crato, ainda conserva pisos de diversos desenhos de mosaicos, fabricados pelo escultor italiano Agostinho Balmes Odísio, que residiu em Juazeiro do Norte entre 1934 a 1940.

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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Cariri, poderá virar Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco
 Sede da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda

   Próximo mês de junho acontecerá, na Fundação Casa Grande – na cidade de Nova Olinda – o “Seminário Internacional de Patrimônio Cultural Imaterial na Chapada do Araripe”.  Trata-se evento destinado ao reconhecimento, pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), do Cariri cearense – mais precisamente a Chapada do Araripe e seu entorno – como Patrimônio Cultural Imaterial do povo brasileiro. Além da Secretaria de Cultura do Ceará (Secult), Fundação Casa Grande, SESC e as universidades da região (URCA e UFCA) compõem o grupo realizador desse evento.
      Para Alemberg Quindins, presidente da Fundação Casa Grande de Nova Olinda: “Estamos tendo um cenário aonde o Cariri e o Ceará vivem hoje um bom momento entre as políticas culturais e avanços na Cultura Popular. O Cariri é um território mágico, mitológico, paleontológico, arqueológico. Ele une quatro estados brasileiros e atende importantes critérios da Unesco como patrimônio mundial: integridade, autenticidade e universalidade”.
        Já Fabiano Píuba, Secretário da Cultura do Ceará, ratificou: “Pensar em patrimônio cultural para o Cariri tem que estar associado ao patrimônio natural. O Cariri e sua Chapada do Araripe é um território profundamente marcado pela cultura popular e tradicional, ambiente de expressões e manifestações riquíssimas; ao tempo que hoje se tornou um polo acadêmico com uma rede de universidades públicas e privadas, tendo a URCA e a UFCA como as principais instituições; além de ser uma zona de desenvolvimento econômico em pleno crescimento e ser um destino turístico dos mais procurados no Brasil, seja por seus aspectos culturais e ambientais”. 

Um exemplo que vem de Londres
    Há 153 anos teve início, em Londres, um projeto de colocação de pequenas placas redondas, na cor azul, em algumas fachadas de casas daquela cidade. Essas placas esféricas preservam o legado de pessoas que nasceram ou viveram em Londres, e que – de alguma forma –deixaram sua marca na história daquela cidade. Antes de ser colocada a placa, a sugestão passa por um critério rigoroso. Aliás, as placas só são colocadas após 20 anos da morte do nomeado, ou se já tiver passado 100 anos do seu nascimento. Que bom exemplo para as cidades caririenses preservarem sua memória.
      Na foto uma das "placas azuis" existentes em Londres. Esta assinala o prédio no qual morou, durante certo tempo, Mahatma Gandhi, o homem que conseguiu libertar a Índia do domínio inglês.

O desprezo pela memória do Cariri
 Bangalô aristocrático que existiu em Juazeiro do Norte

   Vem de longe a destruição da memória (arquitetônica, histórica e de reminiscências) da região do Cariri. Crato e Juazeiro do Norte destruíram o seu patrimônio arquitetônico. Barbalha foi a única cidade do Cariri a cuidar dos antigos casarões.  Infelizmente, a destruição da memória ocorre de forma mais intensa em Juazeiro do Norte, a maior cidade do Cariri. Se fosse adotado, em Juazeiro, o projeto das placas azuis, que existe em Londres, não teríamos mais os locais para colocar placas homenageando pessoas como Amália Xavier de Oliveira, Padre Climério, Mestre Noza, Mons. Juviniano Barreto, Mauro Sampaio, Mons. Murilo de Sá Barreto e tantos outros que foram importantes, em certas épocas,  para a vida de Juazeiro.
      Tempos atrás, o jornalista Jurandy Temóteo escreveu o texto abaixo na revista “A Província”: “As más administrações públicas, a falsa ideia de modernismo, a ganância financeira, a indiferença de considerável parcela da nossa população e a impunidade estão fazendo do Crato uma terra sem memória arquitetônica.

“Prédios públicos e particulares, de inestimáveis valores históricos e arquitetônicos continuam sendo destruídos ou mutilados sem que providências realmente sérias e eficazes se concretizem. Que “Cidade da Cultura”, que “Município Modelo” é este que extermina seus valores culturais, mutila suas ruas, praças, monumentos? O que se tem feito e se continua a fazer contra Crato é um crime, uma barbárie. Até quando?”.

 Vinho “Terras do Crato”
   
No último dia 15 de maio eu me encontrava na cidade de Fátima (Portugal) e entrei num restaurante (“O Recinto”) para almoçar. 
    Ao lado da minha mesa tinha uma prateleira expondo bons vinhos portugueses. Entre eles, havia o tinto “Terras do Crato”, fabricado no Crato português, cidade localizada na região do Alentejo. A uma pergunta sobre as características do vinho “Terras do Crato”, o funcionário do restaurante, no conhecido sotaque português explicou: “Trata-se de vinha na cor rubi, com aroma de notas de fruto vermelho maduro, complexo e intenso. Paladar equilibrado, taninos suaves e boa persistência. Vais a querer?” 
     O preço da garrafa era elevado. Desisti. Mas fica registrado,   para mostrar aos habitantes do Crato brasileiro, que o pequenino Crato do Alentejo português (com menos de quatro mil habitantes), produz excelentes vinhos.







Maria Caboré
    Ainda hoje presente no imaginário do povo de Crato, Maria Caboré, é tida como “santa” nas camadas mais simples da população cratense, 83 anos depois da morte dela.  Muita gente pede graças à alma de Maria Caboré e – alcançado o pedido – manda celebrar missas para ela. Recentemente, o advogado de Fortaleza, Geraldo Duarte, articulista do “Diário do Nordeste” publicou – naquele jornal – uma interessante crônica sobre Maria Caboré, que republicamos abaixo na íntegra.  A conferir:

 “Espírito de anjo ornado em trapos
Túmulo de Maria Caboré ,no Cemitério Nossa Senhora da Piedade, em Crato

   
 "Este, o verso primeiro de poesia do Padre Raimundo Augusto, completado com “Perambulando pela rua ao léu, / Companheira fiel até dos sapos, / Ela tinha por lar o azul do céu.” (quadra inicial do poema “Maria Caboré”, ode daquele pároco dedicado ao, talvez, mais querido personagem do Crato das décadas de 20 e 30 do século passado, publicado na revista Itaytera. Filha de Caboré, coveiro, e Calumbi, roceira, moradores do distrito Matinha, Cícera Maria da Silva Almeida os viu morrer precocemente. Aluou-se. Deu-se a perambular na terra-natal do Padre Cícero e ganhou a apelidação de Maria Caboré.
    "Morena, estatura mediana, utilizava uma espécie de turbante e adornada de miçangas. Na Rua da Vala, hoje Tristão Gonçalves, onde mais vivia, supria as casas com água, retirava o lixo, servia de recadeira e, em troca, ganhava alimentação, roupas usadas e alguns trocados. Suas ética e lealdade, a toda prova, mereciam o respeito e a estima de todos. Honestidade e boa índole a complementavam.
   No mundo ilusório era noiva do “Rei do Congo”, a quem sempre dedicou fidelidade. Dizia-se católica, frequentava a Igreja e confessava-se. Certa feita, notou que o sacerdote vestia calça sob a batina. Surpresa, declarou nas andanças: “Vige Maria, padre é homi!”. Encontrou um feto num dos entulhos daquela artéria. Levou-o à delegacia, entretanto, não envolvendo ninguém, alegou haver esquecido o local.
    "Vítima da peste bubônica que, em 1936, afligiu a cidade, foi interna no hospital improvisado no Seminário Diocesano São José, quando “faleceu piedosamente com a morte exemplar de um justo”, asseverou Padre Augusto. Para muitos cratenses e, até, nascidos noutras localidades caririenses, Maria Caboré é considerada espírito milagreiro deveras evocado. Seu túmulo, no Cemitério N. S. da Piedade, possui visitação frequente durante o ano, destacando-se no Dia de Finados”.

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sábado, 27 de abril de 2019

Quando  Crato era a “Capital da Cultura” do Cariri
Sede própria do Instituto Cultural do Cariri--ICC, localizada em frente ao Parque de Exposição de Crato. Uma instituição pujante nos dias atuais.

      As novas gerações desconhecem o fato. Mas Crato e Juazeiro do Norte mantiveram–até os anos 1980 – acérrima rivalidade. Em 1953, foi fundado em Crato o Instituto Cultural do Cariri (ICC), o qual, além de suas finalidades culturais, seria uma resposta da comunidade cratense, ao crescente crescimento econômico de Juazeiro. Vendia-se, assim a imagem de que Crato se constituía num polo de destaque e civilizador da região no setor cultural. Crato passou a ser chamado eufemisticamente “A Capital da Cultura do Cariri”. Somente em 1974, Juazeiro do Norte criou o seu o Instituto Cultural do Vale Caririense (ICVC) hoje em franca atividade. 
     Na monografia de mestrado da ex-reitora da URCA, Antônia Otonite de Oliveira Cortez, ela comentou assim este assunto: “Superando o poder econômico do Crato na região e constituindo um forte poder de barganha política junto aos governos estadual e federal, Juazeiro elaborou para si os adjetivos de “Cidade da Fé e do Trabalho”, “Metrópole Econômica”, mas nunca pôde ser adjetivada de cidade civilizada ou culta. Esses foram atributos do Crato, estratégias discursivas com as quais os “especialistas da produção cultural” passaram a defender, conscientemente, a superioridade do Crato na região, à medida que Juazeiro a superava no plano econômico e político”

Um marco no desenvolvimento do Cariri: a chegada da energia da CHESF

Acima, alguns caririenses que lutaram pela eletrificação do sul-cearense   

Como surgiu a ideia para a eletrificação do Cariri, pelo sistema da CHESF– Companhia Hidroelétrica do São Francisco? O jornalista cratense José Jézer de Oliveira escreveu no jornalzinho da Casa do Ceará em Brasília: “Tudo teve início quando, no ano de 1949, o professor José Colombo de Sousa, à frente de um grupo de concludentes do curso de Administração e Economia, de Fortaleza, visitou as instalações da usina hidrelétrica do São Francisco. Ali, surpreendentemente, constatou que a região do Cariri, pela sua localização geográfica, estaria inclusa no raio de ação da CHESF, para efeito de receber a energia a ser por ela gerada. Ao retornar à Fortaleza, Colombo de Sousa, através de entrevista ao jornal O POVO, deu a conhecer o fato, ao que se supõe ainda não do conhecimento das autoridades governamentais do Ceará”.

Crato adere à proposta de Colombo de Sousa
   Em face da repercussão da entrevista, Colombo de Sousa foi convidado pelo Rotary do Crato a proferir palestra sobre o tema. Sua fala foi o “pontapé” inicial da aguerrida campanha em favor da eletrificação do Cariri. Essa campanha mobilizaria as classes mais representativas da sociedade caririense, principalmente das cidades de Crato, Barbalha e Juazeiro do Norte. Em Crato, a primeira manifestação para a eletrificação do Cariri ocorreu, como se observa, em 1949. 

Juazeiro do Norte fortalece o movimento
Rua São Pedro, centro de Juazeiro do Norte, início da década 1960

     Em reunião na sede do “Clube dos Doze”, em Juazeiro, também com a presença de Colombo de Sousa, fundou-se o Comitê Pró-Eletrificação do Cariri, que tinha como Presidente o médico Hildegardo Belém de Figueiredo, residente em Juazeiro. O comitê era integrado por representantes de Crato e Barbalha. O objetivo desse comitê era dar suporte ao trabalho do professor Colombo de Sousa, junto às autoridades federais e à Diretoria da CHESF. Colombo de Sousa (que depois seria eleito deputado federal pelo Ceará) já gozava de prestigio político no Rio de Janeiro, então Capital do Brasil.
     Colombo de Sousa viajou para a então capital brasileira, acompanhado dos membros do Comitê Pró-Eletrificação do Cariri, e lá foram recebidos, no Palácio do Catete, pelo Presidente da República, Getúlio Vargas. Anos depois, pela segunda vez, esses membros do comitê tiveram audiência com o então Presidente Juscelino Kubitschek, o qual manifestou apoio ao Programa de Eletrificação do Cariri. Na audiência com Juscelino, Colombo de Sousa já estava investido do cargo de Deputado Federal pelo Ceará e tinha sido o autor da maioria das emendas ao orçamento, garantindo dos recursos da União para a concretização do grande sonho dos caririenses.

Enfim o Cariri foi eletrificado
     Dentro das comemorações pelo cinquentenário da criação do município de Juazeiro do Norte, em 1961, ocorreu a inauguração da energia de Paulo Afonso no Cariri. Era o dia 28 de dezembro de 1961, e a festa foi realizada em praça pública, na Terra do Padre Cícero.  O primeiro poste foi fincado na então entrada de Juazeiro, onde hoje funciona o supermercado Hiper Bom Preço, na Av. Padre Cícero. Crato, Juazeiro e Barbalha foram às primeiras cidades do Ceará a receberem energia da Companhia Hidrelétrica do São Francisco. No Cariri, para distribuição da energia fornecida pela CHESF, foi criada a Companhia de Eletricidade do Cariri (CELCA), empresa de economia mista, subsidiária da Sudene, mas com a participação acionária da própria CHESF, Prefeituras Municipais da região e, em escala bem menor, de particulares. A sede da CELCA ficava na cidade de Juazeiro do Norte. De lá para cá, Juazeiro só fez crescer em todos os sentidos.

Há 80 anos Salesianos chegavam a Juazeiro do Norte
                          Colégio Salesiano Padre Cícero, em Juazeiro, nos dias atuais

     A data passou em branco. Mas é importante deixar registrado que há 80 anos, no dia 31 de março de 1939, a Congregação dos Padres Salesianos chegava a Juazeiro do Norte. Anos atrás, o site Miséria registrou como foram os primeiros dias das atividades dos padres salesianos na Terra do Padre Cícero. Consta na longa matéria do site Miséria os tópicos abaixo:
 “(...) Dois meses após a acolhida, na prática a gente juazeirense mostrou que mais que acolhedora era também solidária. Em 12 de maio sociedade e comércio juazeirense se cotizaram doando em dinheiro vivo a importância de $60.000,00 (Sessenta contos de réis) para que os Salesianos iniciassem imediatamente a construção do sonhado colégio pelo Padre Cícero”.

 Santuário do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Salesianos em Juazeiro

  “Já para construção da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, a Prefeitura de Juazeiro do Norte efetuou doação do amplo terreno onde existia antes a Praça Pio XII. Lembrou o Padre César Casseta (um dos párocos salesianos que passaram por Juazeiro) que:  “A bênção da pedra fundamental da Igreja, segundo nossos arquivos, data de 1955 e contou com a ilustre presença do Padre Renato Ziggiotti, 5º sucessor de Dom Bosco”.  Foram 20 anos entre e o lançamento da pedra fundamental e a inauguração do suntuoso templo”.

 “O Colégio Salesiano Padre Cícero tornou-se uma referência de ensino em toda a região do Cariri. Em 07 de maio de 1978, a comunidade católica juazeirense ganhava o atual Santuário dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Na Igreja, à entrada, consta uma placa: “Padre Cícero Romão Batista, os Salesianos atenderam ao seu pedido. Tenha sua alma tranquila no Céu”.

Já a criação da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, pela Diocese de Crato, data de 1975, durante o episcopado de Dom Vicente de Paulo Araújo Matos. O bairro -- onde fica o colégio e a igreja-matriz -- hoje se chama Salesianos. Os diversos párocos que por ali passaram, desde 1978 aos dias atuais, construíram várias capelas na vasta área da paróquia. Duas dessas capelas viraram, posteriormente, novas “Igrejas- matriz” das novas Paróquias de São João Bosco e a de Nossa Senhora Auxiliadora. Outras bonitas capelas, frutos da ação dos padres salesianos, foram construídas e dedicadas a São Domingos Sávio, Nossa Senhora de Fátima, Santa Teresinha. Todas, espalhadas pelos bairros citadinos de Juazeiro do Norte.

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terça-feira, 23 de abril de 2019

Preocupante: aeroporto de Juazeiro perde 64% da sua movimentação
     A notícia caiu como uma bomba! A partir desta quinta-feira – 25 de abril – a empresa de aviação civil Avianca deixa de operar no Aeroporto de Juazeiro do Norte (mudará a denominação para Airport Juazeiro). 
     Consoante declaração do empresário juazeirense José Roberto Celestino: "Embora a Avianca tenha 17% de participação de mercado no Brasil, em Juazeiro a companhia responde por 65% dos voos. E o nosso aeroporto é também o nosso porto. Então, vamos à luta para mostrar para as outras companhias aéreas brasileiras, que há uma grande oportunidade de investimento no Cariri, já que a área de influência do aeroporto de Juazeiro atende a uma região que envolve quatro estados, e atende a 127 municípios do Nordeste".
Prejuízo grande

 Além de superavitário, o movimento do Aeroporto de Juazeiro é grande

      A má notícia foi anunciada logo após o atual Aeroporto Orlando Bezerra de Menezes (futuro Airport Juazeiro) ter sido privatizado com a perspectiva de melhoria pela empresa ganhadora da concorrência, a espanhola Aena Desarollo Internacional, a qual arrematou o terminal caririense juntamente com outros cinco aeroportos do “bloco Nordeste”. José Roberto Celestino esclarece mais:  "No bloco do Nordeste, apenas três dos aeroportos operados pela Infraero apresentam lucro, o de Recife, o de Maceió e o de Juazeiro do Norte. E quando Aena Desarollo Internacional tomar posse do nosso aeroporto, vamos mostrar que ele  tem capacidade para receber investimentos e dar retornos satisfatórios".
    O engenheiro José Roberto Celestino acrescenta que os 35 voos semanais operados a partir do aeroporto do Cariri têm uma ocupação média superior a 80%. "É uma ocupação excelente, com boa tarifação, e as passagens não são baratas", reforça. Com a saída da Avianca, José Roberto Celestino avalia que a prioridade inicial é substituir as frequências de voos para Fortaleza e Brasília. "Temos esperança de que a Latam ou a Gol façam esses voos", disse ele.
      Resta-nos torcer para que a superação desse problema se faça com urgência, mesmo sabendo que a burocracia da ANAC gasta cerca de um ano para autorizar novas linhas de operação nos aeroportos brasileiros... Coisa de estatal!
A religiosidade do povo do Cariri
     Um fato chama a atenção dos visitantes que vêm ao Cariri, principalmente os residentes no Sudeste do Brasil: No Sul do Ceará, as pessoas que se levantam cedinho para exercitarem-se fisicamente, costumam fazer suas caminhadas com um terço na mão, para rezar o rosário mariano. Aquilo que chama atenção de pessoas de outras regiões brasileiras, é fato antigo e corriqueiro no Cariri cearense.
    No final da década 40 do século passado, o autorizado historiador Irineu Pinheiro, escreveu a frase abaixo, inserida na página 94, do seu livro “O Cariri”, publicado em Fortaleza, em 1950 e republicado, em edição “fac-símile”, pela Fundação Waldemar de Alcântara, em 2009:
“Foi sempre muito religioso, inda hoje o é, o povo do Cariri”.
 Pátio da Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, em Juazeiro do Norte, na  festa de Nossa Senhora das Candeias, no dia 02 de fevereiro
        É verdade. Desde os primórdios da colonização do Sul do Ceará, a fé católica plasmou o modo de vida dos caririenses. Sobre este viés religioso, assim escrevi no livro “Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro – O contrarrevolucionário do Cariri em 1817”, no Capítulo II:
“(Nos primórdios da sua colonização, início do século 1700) Distante mais de 600 km do litoral, carente de comunicação com os centros mais adiantados, no Cariri foi plasmada uma cultura própria, herança portuguesa, sob forte influência da Igreja Católica. Em algumas localidades, as companhias de penitentes se flagelavam, à noite, em frente das igrejas e dos cemitérios. O centro gravitacional das populações girava em torno da aristocracia rural, como se fora um feudo medieval. O proprietário rural atuava quase sempre como um poder moderador nos conflitos naturais da convivência humana. E a relação patrão-empregados era feita na base do compadrio. O proprietário rural era visto mais como um amigo (a quem se podia recorrer nas dificuldades) sendo impensável, naquele tempo, a versão – ainda em moda nos dias atuais, nas universidades públicas – de classe dominante”.  
Mentalidade religiosa de décadas atrás
      Essa mentalidade religiosa, característica da população do Cariri, prevaleceu até a década 1950. A partir dos anos 1960, com a difusão, também entre nós, das ideias do filósofo marxista Antônio Gramsci – conhecidas por “ocupação cultural” – invadiram os espaços da nossa sociedade, de maneiras especial nas universidades públicas, escolas, imprensa, cinema, teatro, instituições culturais, dentre outras. O resultado disso foi a imposição de uma mentalidade laicista – em tudo oposta à mentalidade católica tradicional – nas diversas camadas da população caririense. A partir disso sofreu declínio as manifestações do catolicismo tradicional.
     Hoje, a população caririense, mesmo a parcela mais pobre, tem amplo acesso à televisão (com as novelas chamadas de vanguarda), as quais, aliadas à massificação da mídia,  ao crescimento das  redes sociais, à crescente presença dos cursos universitários,  (não só na conurbação Crajubar  – Crato-Juazeiro-Barbalha –,  mas nas demais idades periféricas do Cariri) contribuíram para que a religião católica perdesse a influência  que possuiu outrora. 

Resistência Quae Sera Tamen (Resistência ainda que tardia)
Romaria à Serva de Deus Benigna Cardoso, em Santana do Cariri
     Parafraseando o lema da Inconfidência Mineira (Libertas Quae Sera Tamen)  observa-se que, apesar de toda as investidas da “ocupação cultural” de Gramsci, e graças à devoção popular que se conserva à memória espiritual do Padre Cícero, da devoção à Serva de Deus Benigna Cardoso, como também, ao surgimento dos novos movimentos de leigos   consagrados (dentre eles: Comunidade Sal da Terra,  Filhos Amados do Céu, Missão Resgate,  Fundação Terra, Focolares, Arautos do Evangelho, dentre outros) persiste, no Cariri,  uma minoria que mantém o espírito católico existente há décadas atrás.

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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Turismo ecológico: nova atração do Cariri
    Inicialmente o turismo no Cariri restringia-se às romarias feitas ao Padre Cícero Romão Batista. A pequena vila que o Padre Cícero encontrou ao lá fixar residência, a partir de 11 de abril de 1872, depois do episódio que passou à histórica como o “Milagre da Hóstia” cresceu tanto, que hoje é a maior cidade do interior cearense, possuindo cerca de 270 mil habitantes. Depois, foram as descobertas das riquezas paleontológicas que criaram novo fluxo turístico ao Cariri.  Hoje, graças as belas paisagens da Mata Atlântica, existentes na Chapada do Araripe, surge o turismo ecológico atraindo visitantes de todo o Nordeste. 
       Esse novo viés turístico, vem sendo explorado através de trilhas (percorridas a bicicleta ou a pé), como também por outras atrações como rapel e balonismo.  É cada vez maior o número de pessoas que procuram a Floresta Nacional do Araripe–Flona, para caminhadas, pedaladas ou pratica de esportes. Grupos de Educação Ambiental vêm sendo criados e o filão é responsável pela ocupação dos dois hotéis que foram construídos no supedâneo da Chapada do Araripe: o Encosta Hotel da Serra e o Pasárgada Hotel. 
Patrimônio histórico-religioso do Cariri: a Capela do Santíssimo Sacramento da Catedral de Crato
     Construída em 2011, pelo então Cura da Sé de Crato, e hoje Bispo de Tianguá, Dom Francisco Edimilson Neves Ferreira, o projeto desta capela é do arquiteto Waldemar Arraes Farias Filho. Ele a projetou para ser um ambiente simples, mas imponente. Ao fundo daquele espaço, fica um retábulo de madeira em estilo colonial rústico. Lá, está colocado um grande sacrário de metal branco, com desenhos dourados em alto relevo, do século passado. O sacrário está ladeado por dois Querubins, esculpidos em de resina, no estilo sulpiciano, obra do artesanato de São João del Rey, Minas Gerais. A lâmpada do Santíssimo Sacramento, em estilo gótico, foi também restaurada, pois já servira à antiga capela do Sagrado Coração de Jesus da mesma catedral.
  Na parede direita da capela foram colocadas duas pinturas em madeira com motivos litúrgicos. Ali também foram colocados dois artísticos e belos vitrais. Um deles, com o desenho da Mãe do Belo Amor, homenageando a primeira imagem mariana venerada na conurbação Crajubar. A imagem original, que inspirou a do vitral – segundo piedosa tradição – foi trazida para a Missão Miranda, por volta de 1740, pelo fundador de Crato, Frei Carlos Maria de Ferrara. Diga-se, de passagem, que a pequena imagem da Mãe do Belo Amor ainda existe, em excelente estado de conservação, guardada na Casa Paroquial. O segundo vitral da Capela do Santíssimo reproduz São Fidelis de Sigmaringa, oficializado por Dom Fernando Panico como “Co-padroeiro” de Crato.
Centenário do Prof. José do Vale Arraes Feitosa
    Neste sábado, 13 de abril, a comunidade cratense festejará o centenário de nascimento do Prof. José do Vale Arraes Feitosa, pessoa que muito contribuiu para o setor educacional caririense, entre as décadas 40 a 70 do século passado. Este evento está sendo promovido pela Família Feitosa, Instituto Cultural do Cariri, IFCE–Campus Crato, Associação do Ex-alunos do Seminário São José–ADSUM e Escola Prof. José do Vale Arraes Feitosa.

Confira a programação completa

Sábado, 13 de abril de 2019

– A partir de 8h: IFCE campus Crato
Reinauguração da Trilha Ecológica José do Vale Arraes Feitosa e Reinauguração da biblioteca José do Vale Arraes Feitosa
Local: CE 292, km 15, logo após o  bairro Gisélia Pinheiro (mais conhecido como “Batateira”)
– 11h:  Celebração de Santa Missa, presidida por Dom Gilberto Pastana.
Local: Capela São José (Seminário Diocesano São José, em Crato)
– 15h; Homenagem dos alunos e professores da  Escola Professor José do Vale Arraes Feitosa (localizada no Bairro Nossa Senhora de Fátima, antigo Barro Branco,  Zona leste de Crato)
– 19h30: Sessão Solene do Instituto Cultural do Cariri. Exibição do audiovisual produzido pelos filhos de José do Vale A. Feitosa.
Lançamento da edição especial da Revista Itaytera 2019.
Local: Salão de Atos da Universidade Regional do Cariri
Temporada das chuvas no Cariri em 2019
O estrago deixado pelas chuvas em duas fortes chuvas que caíram na cidade de Crato
   Em setembro de 2018, o Centro de Previsão Climática do NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional), dos Estados Unidos, anunciou que o Ceará em particular – e a Região Nordeste, de um modo geral – poderiam ter chuvas abaixo da média histórica em 2019. Isso porque, segundo aquele instituto, a possibilidade da ocorrência do fenômeno climático El Niño (no fim de 2018 e início de 2019) chegaria a 70%, de probabilidade. Errou feio a previsão. Neste ano tivemos uma das maiores temporadas de chuvas no Cariri, nas últimas décadas.
      Em 2019, na cidade de Crato, os pluviômetros do bairro Lameiro (situado próximo ao supedâneo da Chapada do Araripe) registraram os seguintes números no tocante às chuvas caídas: em janeiro, 192,.8mm; em fevereiro, 219,2mm; em março, 391,8mm, e em abril (até a manhã do dia 10) já tinha chovido 338,2mm. Choveu, portanto,  1.142mm em Crato, até o presente.
As chuvas no Cariri de outrora
       A exemplo de todo o semiárido do Nordeste brasileiro, também na Região do Cariri cearense a regularidade da chuva é o principal fator que afeta a vida de sua população. No entanto, o Vale do Cariri sempre possuiu uma precipitação de águas pluviais maior do que a registrada nos sertões nordestinos.  
        Tendo em seu território parte considerável da Chapada do Araripe, o município de Crato (excetuando os anos de seca generalizada) sempre teve uma das melhores distribuições de chuvas do Sul do Ceará, com uma média anual de 1.142 mm.
               Irineu Pinheiro, no seu clássico livro “O Cariri”, editado em 1950, escreveu que: “É o Cariri uma estreita faixa de terreno sertanejo com fontes que nunca secam. Para a vida humana, o Cariri é um presente da Chapada do Araripe”. Infelizmente, o desmatamento na Chapada do Araripe e sítios próximos a ela, a destruição da mata ciliar dos rios e riachos, resultou na diminuição das chuvas no Cariri.  A maioria das fontes perenes secou. O crescimento vertiginoso da população na conurbação Crajubar (Crato-Juazeiro-Barbalha) também contribuiu para que hoje a água esteja rareando. A bem dizer, o Cariri não é mais aquele oásis de que falavam nossos pais e avós.
 
às abril 12, 2019 Nenhum comentário:
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sábado, 30 de março de 2019

 Emerson Monteiro chega aos 70 anos

    O auditório do Instituto Cultural do Cariri–ICC ficou lotado com os muitos amigos e familiares de José Emerson Monteiro Lacerda. Este ganhou uma festa-surpresa, na noite do último dia 29, por conta do 70º aniversário de idade. Emerson, embora tenha chegado a Crato com 5 anos de idade, nasceu em Lavras da Mangabeira, no dia 26 de março de 1949.
   Emerson Monteiro é um homem plural. Desde a adolescência deixou marcas de sua presença na vida cultural de Crato. Ainda estudante, foi presidente do Grêmio Farias Brito, do Colégio Diocesano, quando lá estudou. Depois escreveu crônicas para as duas emissoras de rádio da Cidade de Frei Carlos: Araripe e Educadora do Cariri. Em 1966, foi um dos jovens que mudou a linha editorial e gráfica do jornal “A Ação”, semanário da Diocese de Crato. Vem daquele tempo minha convivência com Emerson.
     Em 1967, aprovado em concurso público para o Banco do Brasil passou a trabalhar em Brejo Santo (CE). Em 1971 passou a residir em Salvador (BA) onde estudo Psicologia e Comunicação. Em 1977 retornou ao Crato e as suas origens. Aqui graduou-se em Direito e adentrou pela atividade política, sendo eleito vereador à Câmara Municipal de Crato. Foi ético e honesto nessas duas atividades, coisa rara para os tempos que marcaram a redemocratização do Brasil a partir de 1986.
       O Instituto Cultural do Cariri muito deve à dedicação e trabalho desinteressado de Emerson. Ainda hoje, depois de ter exercido todos os cargos na diretoria do ICC, Emerson é editor da revista Itaytera. Emerson Monteiro já escreveu e publicou diversos livros, dentre os quais destaco: “Sombra e luz”, “Noites de lua cheia”, “Cinema de janela”, “Crônicas e narrativas”, “É domingo” e “Histórias do Tatu”.
          Mas, e acima de tudo isso, Emerson Monteiro é respeitado pelo bom caráter de que é possuidor, pela sua mansidão, lhaneza no tratamento com as pessoas, correção no agir e profundo sentimento humanitário e filantrópico que lhe é peculiar. Um homem de bem!

O Cariri tem disso: capela a céu aberto

    Na foto acima, a capela Recanto da Divina Misericórdia, construída em Missão Velha. Ela fica situada no final da Rua Padre Cícero, naquela cidade, mais precisamente em frente à tradicional Indústria Linard.
No tempo das bodegas

     Até o início da década 60 do século passado inexistiam no Cariri os supermercados. As famílias compravam os gêneros alimentícios nas bodegas. Em Crato, no centro da cidade as mais conhecidas eram as mercearias de Zé Honor e a de Cícero Beija-flor. Naquele tempo nada era empacotado previamente, como nos dias atuais. O cliente escolhia o que queria e levava as mercadorias para casa acondicionadas em papel de embrulho. No piso das bodegas, grandes vasilhames de flandres guardavam farinha, feijão, arroz, açúcar, sal, milho, goma, dentre outros.
     Nas prateleiras de madeira ficavam o sabão, café, latas das bolachas Pilar e Confiança, conservas, etc. No balcão tinha fiteiros, onde eram expostos bombons (chamados de “confeitos”), cocadas, chocolates em forma de peixinhos e os chicletes Adams (caixinhas amarelas sabor hortelã e caixinhas vermelhas, sabor canela) e outras guloseimas. As bodegas vendiam de tudo. A maioria dos clientes fazia a feira e só pagava no fim do mês. As compras eram anotadas em cadernetas. Existia confiança recíproca entre o dono da bodega e o freguês. O “progresso” acabou com isso. Poucas bodegas, nas periferias das cidades caririenses, ainda resistem à mudança voraz feita em nome do progresso.

 Destruíram os rios e restaram as enchentes 
    Na foto acima, como era o Rio Granjeiro que passava no centro de Crato na década 30 do século passado. A foto foi feita onde hoje existe um posto de gasolina na esquina da Rua Santos Dumont com Rua Almirante Alexandrino. O que resta hoje deste cenário paradisíaco é um canal imundo, que transborda na temporada das chuvas trazendo lama ao centro da cidade e nos demais meses do ano recebe os esgotos da redondeza. 
     Em Juazeiro do Norte, o Rio Salgadinho passava próximo ao centro da cidade, e – como lembram os antigos – tinha uma água límpida, cristalina que permitia ver até os peixinhos que ali nadavm. Hoje o Rio Salgadinho é o repositório do lixo urbano que grassa nas proximidades do antigo leito.Poluído, fedorento... Triste.
Cariri perdeu Monsenhor Manuel Feitosa

       Bem disse o Bispo de Crato, Dom Fernando Pastana, na homilia da missa de corpo presente do Monsenhor Manuel Feitosa: “A Diocese e a cidade de Crato amanheceram mais pobres, nesta quinta-feira, 28 de março de 2019. 
      Nascido em 25 de novembro de 1930, na Fazenda Olha d’Água da Serra, zona rural do município de Arneirós, no Sertão dos Inhamuns, Mons. Manuel Feitosa veio ao mundo num lar pobre; no seio de uma família de agricultores, composta por pessoas profundamente imbuídas dos princípios da Igreja Católica.
     Àquela época, a região dos Inhamuns era integrante da Diocese de Crato. E a família Feitosa era um destacado clã naquelas terras do semiárido que lembram um deserto na época do verão. Os jovens da família Feitosa tinham o costume de deixar o seu torrão natal para estudar na cidade de Crato. Muitos daqueles jovens se destacaram, posteriormente, como sacerdotes cultos, professores vocacionados e como escritores”.
       Mons. Manuel Feitosa foi um deles. Foi padre durante 60 anos. Viveu a maior parte da sua vida na cidade de Crato. Mas prestou serviços à Igreja nas paróquias dos municípios de Jardim, Lavras da Mangabeira, Várzea Alegre, Granjeiro, Quitaiús e Ipaumirim, Assaré, Antonina do Norte e Tarrafas. Retornou a Crato em 2000 e seus últimos 19 anos de vida foram vividos em fazer o bem a todos que o procuravam. O corpo do Monsenhor Manuel Feitosa foi enterrado na Capela da Ressurreição, na Sé Catedral, onde estão sepultados os corpos dos quatro primeiros bispos da Diocese de Crato: Dom Quintino, Dom Francisco, Dom Vicente e Dom Newton.
às março 30, 2019 Nenhum comentário:
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